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segunda-feira, 11 de maio de 2009

A Marcha dos Pinguins


Título original: La Marche de L´Emperour
Ano de lançamento (E.U.A/França):
Direção: Luc Jacquet

Imenso fã de documentários sempre procurei acompanhar o que de novo surgia no gênero atualmente, certas vezes um documentário nos transborda tanto para aquele mundo, aquela situação, que nos sentimos inúteis ou até perplexos, já que diferente de um longa de ficção, aquilo está realmente acontecendo, é o verdadeiro mundo real, a trama existente abordada por uma determinada temática. Porém tinha receios quanto ao documentário francês vencedor do Oscar ´´A Marcha dos Pinguins``, pensava que poderia se tornar só mais uma aula educacional dos canais National Geographic ou Animal Planet (ótimas, mas com um certo tempo enjoativas). Entretanto o longa francês em nada se parece com o a visão adotada pelas filmagens do canal, já que possuindo um estilo de narrativa totalmente diferente e inovadora a percepcção que retiramos da trama se encaixa perfeitamente na denúncia de uma visão egoísta nossa, ao ponto que forçando-nos a encarar e ver aqueles animas como seres-humanos, sentimos pena, torcemos, e sim, quase choramos. Eu mesmo repeti comigo mesmo por diversas vezes ao longo da película; ´´gente..``, ´´povo...``, ´´menino...``. E em contrapartida somos obrigados a perceber que seres ditos irracionais possuem uma trajetória de vida mais condizente com a de um ser extremamente racional.

Na Antártica (local mais inabitável da Terra), a cada inverno, milhares de pinguins imperadores deixam o confortável habitat do oceano e sobem à terra congelada rumo interior, onde todos inexplicavelmente marcham ao terreno onde encontrarão um par para a reprodução de sua espécie. Essa épica e emocionante trajetória das diversas fases da reprodução e criação dos filhotes é mostrada passo a passo, desde da saída destes para o solo, o encontro com todos, o caminhar rumo ao local, as uniões dos pares, a reprodução, o surgimento do ovo, a caça à comida das fêmeas enquanto os machos protejem o ovo, a libertação dos filhotes, o retorno das fêmeas, a partida dos machos em busca de alimentos, o reencontro da ´´família``, o amadurecimento dos filhotes, e enfim, a volta ao oceano, culminando mais brevemente aos filhotes o mesmo destino. Que imensa vontade senti em utilizar as palavras mãe, pai e filho neste parágrafo. Pois é exatamente este o intuito inteligente e perturbador do diretor Luc Jacquet e do roteirista Michel Fessler, nós espectadores nos sentimos tocados, ao passo que cria-se a freneticidade e curiosidade a todo minuto da projeção, algo complicadissimo, fato que não aparece uma pessoa sequer durante o filme. Portanto encararmos aqueles animais como humanos acaba por desencadear num sentimento nosso pela assim diga-se odisséia dos pinguins.

A narração em off brilhantemente apresentada e executada explica toda a situação de maneira inimaginável, pelo ponto de vista dos próprios pinguins, tais como estes tendo diálogos e pensamentos refletidos na tela pela voz suave de seus narradores (a oficial francesa), a epopéia se torna tão instigante por ser cruel, linda, e trágica. Minuto a minuto queremos saber o que ocorrerá, não por mera curiosidade da vida animal, mas por interesse e solidariedade pelos ´´personagens`` reais. A grandeza do documentário é notável, já que esse período dura vários meses e possui inúmeras fases e complicações distâncias imensas de locais, portanto é fantástico como conseguiram capturar e demonstrar tudo, realmente tudo que acontece, através de câmeras vivissimas a imagem dos pinguins torna-se deslumbrante, uma verdadeira obra de arte das descobertas. Uma pena também a edição do longa não ter sido ao menos indicada ao Oscar, prêmio que merecia disparadamente ganhar. A introdução de uma sequência cronólogica na vida dessas aves realiza-se num dos trabalhos de montagem mais brilhante que tive a oportunidade de assistir. Nada é perdido, cada minímo detalhe é mostrado com precisão, por mais que este seja cruel ou impensável.

Outro ponto importante fora o implemento de uma trilha sonora poética e suave, a mais humana possível, além de músicas primordialmente tocantes em momentos especificos de ´´drama interior`` onde inexistia uma narração para explicar o ocorrido, e não precisava, pela beleza da imagem percebia-se o significado do momento. ´´Gente``, ´´menino``, ´´mãe``. Foram algumas das palavras que repeti durante a projeção da fita. As capturas do documentário nos fazem pensar, pois mesmo os pinguins-imperadores são obviamente irracionais, mas por que estes possuem atitudes tão humanas? Por que retiramos de muitas de suas atitudes as mesmas que as nossas em família ou sociedade? Coisas da natureza, demonstrada com louvor num verdadeiro épico documentário. Até o mais aversivo aos animais vai se deleitear e emocionar-se com o ´´senso humano`` da marcha dos pinguins-imperadores.

Cotação: 9.0

**Caso assista, vai com certeza querer saber mais sobre a maior ave da família Spheniscidae (pinguins), então acesse aqui.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Watchmen - O Filme


Título original: Watchmen
Ano de lançamento (E.U.A): 2009
Direção: Zack Snyder

Confesso, e sim, me envergonho. Tantas e tantas pessoas falavam da adaptação deste graphic novel, faziam enorme avolroço, expectativa, muitos o listavam no patamar como o filme mais esperado do ano, enquanto outros, o consideravam como a adaptação de HQ dos cinemas mais esperada da história. ´´Nossa, que exagero!``, pensei. Mas não, não é, os quadrinhos inventado por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons é o panorama de uma realidade fantasiosa e ficticia, mas que a todo momento soa mais real do que a própria realidade de sua época, mostra um mundo perdido entre indivíduos parodoxos e igualmente transtornados, mas comuns em relação à situação em que se encontram, pois sabiam estes que tudo fora resultado de suas próprias atitudes, ações saídas de suas mãos, e como dito numa passagem do filme (e acredito também no HQ) não haveria como impedir a natureza humana de tomar seu curso, sua evidente trajetória à desgraça. E se, felizmente, esse aspecto sombrio não tomou face naquela época, ele parece estar cada vez mais próximo e real, o que torna a estória de Alan Moore contundente a qualquer época que seja, hoje ou 20 anos à frente. Por isso, mesmo sendo uma graphic novel, é considerada por muitos como uma das maiores obras da literatura de língua inglesa da história, e portanto a adaptação para os cinemas era aguardada ansiosamente, e temerosamente pelos seus inúmeros fãs em todo o mundo.

E levando em consideração este ponto, Zack Snyder e seus roteiriristas acertaram em cheio tamanha a dificuldade de adaptação da obra, sempre sob olhares atentos. Em 1977 é aprovada nos E.U.A a Lei Keene, que proíbe as atividades dos mascarados em combate ao crime. Um mundo onde os E.U.A venceram o conflito no Vietnã, ajudado pelo Dr. Manhatan (Billy Crudup), um humano que acidentalmente fora geneticamente modificado e ganhou poderes e formas sobre-humanas. Quando chega 1985 a Guerra Fria está no seu limite e a qualquer momento uma guerra nuclear, vitimizando milhões de pessoas, irá acontecer, preocupando o eleito pela quinta vez consecutiva presidente Nixon. É então que um dos mascarados é assassinado, o Comediante (Jefrey Dean Morgan), e um de seus antigos companheiros Rorshach (Jackie Earle Haley) teme que exista um assassino de mascarados à solta, e começa a investigar os casos, junto com outros ex-companheiros, tais como Coruja (Patrick Wilson), Espectral (Malin Arkeman) e Adrian Veidt (Mathew Good).

A trama é complexa, a premissa é fabulosa. Realmente a idéia original é sublime, genial. Acompanhamos um mundo distorcido e ao mesmo tempo realista, natural, ao refletimos sobre a natureza destruidora e selvagem do homem. Portanto, em relação à mensagem da trama, o filme deve ter se mantido fiel aos quadrinhos. Temos entretanto ótimas, boas e irregulares atuações, diria até ruim em alguns casos. Patrick Wilson é o primeiro a decepcionar, o talentoso ator falha ao tentar passar a fragilidade sentimental de seu personagem de maneira muito perplexa, e cai em exageros, assim como Malin Akerman aspira enorme sensualidade com sua Espectral, mas não tem sucesso na parte dramática. Mathewm Goode e Billy Crudup interpretam de forma simples seus personagens, assim como Carla Gugino que pouco faz. O destaque mesmo fica para dois atores que incorporam em si personagens bem parecidos em sua personalidade, tanto humorística e sádica, como auto-destrutiva. Jackie Earle Haley voltou com tudo na sua carreira e é impactante e perturbador desde da primeira à última tomada. Já Jefrey Dean Morgan, além de pegar o melhor persona, o explora detalhadamente e o transforma na mais perfeita visão da realidade que aquele mundo tomou, personagem marcante e uma atuação fantástica (seria o máximo um Downey Jr. nesse papel).

Os roteiristas, embora falhem repetidas vezes, como a mal explorada e abordada relação entre Laurie (Espectral) e Dan (Coruja), tal como esta com Jon (Manhatan) e em situações cômicas pouco interessantes e nada plausíveis, são perdoados ao conseguirem retirar a essência da obra de HQ, a verdadeira eficácia desta. Zack Snyder prova mais uma vez ser talentoso, e abandona a excessiva utilização estética do bom ´´300`` para uma abordagem mais realista e sombria do mundo retratado, além de manter a narrativa em um ritmo forte e concentrado, mesmo perdendo sua freneticidade em algumas sequências. Embora perca-se em alguns momentos do longa (algo impossível de não acontecer para um diretor iniciante numa trama tão complexa) ele realiza uma boa continuidade épica e misteriosa, com excelentes cenas de ação e luta, pecando um pouco ao cair no superficialismo no estudo intímo de certos personagens. O maior erro de sua direção, porém, fora talvez a escolha da trilha sonora da fita, pois embora as músicas na sua maioria sejam clássicas e memoráveis, em nada se assimilam ao exato momento que está transcorrendo nas telas. Talvez uma tentativa de tornar o filme como ´´cult`` mal sucedida.

Com qualidades técnicas invejáveis e extremamente bem realizadas, ´´Watchmen``, embora possua suas falhas, apresenta-se como uma obra competente não somente aos fãs da graphic novel, sobretudo aos bons admiradores de uma aventura ficticia, um retrato de um mundo paralelo que poderia ser o nosso e infelizmente ainda pode vim a ser, por mais surreal que possa parecer.

Cotação: 8.0

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Quem Quer Ser um Milionário?


Título original: Slumdog Millionaire
Ano de lançamento (E.U.A/Inglaterra): 2008
Direção: Danny Boyle

Há 4 ou 5 meses atrás quase ninguém apostava num tal de ´´Slumdog Millionaire`` nas principais categorias do Oscar (inclusive eu). Hoje, favorito absoluto e com expressivas 10 indicações, o filme deve ser o grande vencedor do 81 th Academy Awards levando a dobradinha filme-diretor. E por quê o motivo de tamanho sucesso surgir de maneira repentina e avassaladora? São tantos que com certeza esquecerei algum nesta resenha, mas um resumo bem específico exemplifica: ´´Quem quer ser um milionário?`` é um conto dos tempos modernos, uma fábula imaginária e realista da nossa época, a inclusão de pessoas comuns que passam por situações tristes, terríveis, degradantes e possuem força de superação para irem atrás de seus objetivos, sendo este nada menos que um amor perdido e eterno. Quem não gosta disso? Transcedendo a enorme beleza estética da trama temos Danny Boyle, que faz sem dúvidas um dos trabalhos de direção mais magnifico e inovador dos últimos anos. Tudo visto em tela é fruto do desempenho sublime deste super talentoso e brilhante diretor.

Jamal Malik (Dev Patel/ Tanay Chheda/ Ayush Mahesh) é um pobre favelado de Mumbai, na Índia, aparentemente um rapaz sem muita educação formal. Mas num programa telvisivo de sucesso (tipo um ´´Show do Milhão``) ele estar a uma pergunta de conseguir o prêmio máximo. Como ele conseguiu chegar até aqui? Trapaceou? Sortudo? Gênio? Destino? Mandado a uma sala de interrogátorio ele é torturado por militares e obrigado a esclarecer como o fez (já que ninguém acreditava num favelado para o prêmio máximo). Jamal então assiste junto com o militar uma fita contendo o programa do qual ele participou e todos verão como ele respondeu às perguntas, começamos através dessa narrativa totalmente complexa e diferente a entrarmos no mundo de Jamal, pois acontece que as perguntas do programas quase todas possuiam alguma ligação com os principais acontecimentos da triste história de vida do garoto e passamos por sua infância, adolescência e fase atual, à medida que o verdadeiro motivo dele participar do programa é revelado. Tudo por amor, o amor eterno que por motivos e ocasiões trágicas ele nunca pode ter, o amor de sua companheira de infância Latika (Freida Pinto/ Tanvi Ganesh/ Rubianna Ali), atrapalhado inclusive pelo próprio irmão de Jamal, Salim (Maduhr Mittal/ Ashutosh Lobo/ Chirag Parmar).

Uma definição do longa nos dias atuais onde o cinema mundial passa por uma crise de originalidade é esta: o filme é diferente e portanto, original. A começar pela narrativa nada convencional empregada na trama. Misturam-se presente (Jamal no interrogatório) e passados distintos (Jamal no programa, Jamal criança, jovem e adulto), todas ligadas entre si e apresentando uma conexão importante na vida simples e triste do garoto, fazendo do roteiro de vai-e-vêm um primor de objetividade, em momento algum tornando-se confuso. Claro que por este aspecto da trama nunca cair em desentedimento com o espectador valorizamos a brilhante e melhor montagem da temporada, que mantém a mesma conectividade presente no texto do longa e liga as fases de maneira rápida, frenética, mas sempre precisa e coerente, sendo este o principal elemento técnico da fita. Além disso temos uma fotografia eficiente no exercício de sua função, já que como o longa coloca-se como um conto, uma fábula, a fotografia transborda em cores vivas e fortes nas mais diversas fases da história, e impressionante como este trabalho cinematográfico vai sempre evoluindo, como se estivesse acompanhando a evolução não só da própria trama, mas de Mumbai em si.

A trilha de A.R. Rahman é fantástica, sublime e precisa em todas suas faixas. Alterna entre momentos de tensão, romance e a própria fábula em si, destaque para as faixas ´´Riots`` e ´´Mausaum and escape``. Ajudada este pela perfeita união e composição entre a qualidade sonora do longa, a edição e mixagem de som são de perfeito encaixe para a composição sentimental do longa. E por quê atores desconhecidos e sem muita experiência como Patel, destaque entre as atuações (carrega boa parte do drama para si próprio), Pinto e todos os outros, principalmente as espetaculares crianças, obteram um desempenho tão acima da média, levando-os a um status de gente grande? A resposta é Danny Boyle, a resposta de tudo é Danny Boyle, o diretor nos oferece um trabalho primoroso, sensacional, instigante e acima de tudo super cativante. Aliás este fora o principal mérito da sua direção; conseguir cativar o espectador de maneira convincente e inovadora como este o fez.

O único que não vi de sua filmografia ainda é ´´Caiu do Céu``. Do resto podemos perceber o fascínio de Boyle em pegar pessoas comuns, submetê-las a situações inusitadas e inesperadas e ao estudarmos o peculiar de cada uma delas, percebemos que nem o personagem nem nós mesmos (meros espectadores) sabemos o que este virá a fazer em seguir. Vemos isso bastante no seu primeiro longa ´´Cova Rasa`` e até em filmes com tramas apocalípticas tais ´´Sunshine`` e ´´Extermínio`` encontramos essas características. Ao nos cativar com uma história triste e miserável de Jamal ele consegue levar o personagem a status de herói, um herói comum em carne e osso, e isso é algo que Jamal nunca pensou nem considera ser. Outro grande ponto como já afirmado antes foi a condução de elenco feita pelo diretor, necessitando de um trabalho mais especial e cuidadoso nesta área. Utilizando clichês ele praticamente os elimina de forma inteligente, já que os transforma em mais um elemento da fábula passada e permitindo que um possível momento superficial passasse longe da cena. E embora utilize de recursos conhecidos uma contraste positiva na sua direção é a sua maneira de inovar, usando um estilo de câmeras em posições e cores diferentes. Misturando e equilibrando tensão, aventura, romance, comédia, fábula, o diretor nunca perde o foco da trama e mantém a mesma importância e curiosidade o espectador acerca de cada fase da vida de Jamal, sabendo conduzir o mesmo ritmo em duas horas de projeção. Enfim, de um trabalho brilhante nunca lembramos de tudo que gostaríamos, então irei parar por aqui.

E outra pergunta. Por quê comentei tanto de cada aspecto preciso e detalhado da fita? Porque na minha opinião uma obra-prima é aquele filme do conjunto, onde unindo todos seus aspectos obtêm-se o resultado, uma obra para ser assistida de maneira detalhada. Portanto posso afirmar, e são poucos ultimamente que entram nessa lista, que ´´Quem quer ser um milionário?`` é uma obra-prima e desde já minha torcida para o Oscar, num ano em que a lista de indicados foi no geral fraca, ao menos meu preferido do ano será o possível vencedor.

Cotação: 10

Torcida no Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição, Melhor Fotografia, Melhor Canção (Jai-ho).
Que pena não ser candidato: Melhor Ator Coadjuvante (Dev Patel).

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Filmes do Oscar: O Lutador, Milk e Frost/Nixon

Ficar sem postar na época do Oscar é chato mesmo hehehe, mas tentarei o possível. Ah! Devido a premiação o BDC Awards só retornará após o Academy Awards, esta semana será só sobre Oscar, e de cara três filmes que estão concorrendo.

O Lutador


Título original: The Wrestler
Ano de lançamento (E.U.A): 2008
Direção: Darren Aronofsky

Um filme independente e que suou bastante para ver a luz do sol acabou se tornando, ao menos para mim, uma das maiores surpresas da temporada do Oscar, um trabalho digno da premiação e que de certa forma merecia muito mais do que apenas duas indicações. Randy The Ram (Mickey Rourke) era um dos maiores nomes do pugilismo no país, e hoje nada mais é do que chamamos de um desiludido. Solitário e necessitado ainda insiste em continuar nas suas lutas de wrestling, onde é adorado e venerado por todos seus colegas de trabalho, é amigo de todos e nunca perde o controle, o tipíco sujeito boa-praça. Eis que numa de suas lutas ele sofre um ataque cardíaco e é seriamente alertado pelo seu médico para este nunca mais subir num ringue, podendo as consequências ser devastadoras. Desesperado e sem um intuito na vida ele decide tentar conquistar duas mulheres; uma é a stripper Cassidy (Marisa Tomei) e a outra é ninguém menos que sua filha Stephanie (Evan Rachel Wood), abandonada pelo próprio há muito tempo atrás. E à medida que ambas as reconciliações vão se formando, no caminhar das separações Randy Robbinson tomará uma decisão dolorosa na sua vida.

O roteiro do longa baseia-se numa trama simples, envolvendo uma temática já muito usada, mas honra-se ao em momento algum soar repetido ou clichê, criando uma originalidade natural. Fato este deve-se muito ao trabalho primoroso executado pelo injustiçado Darren na direção. Darren Aronofsky introduz um estilo diferente e fantástico, através dos movimentos de câmera e do encaixe perfeito de focos e locais. Seus diversos planos-sequência nunca se tornam cansativos e transcedem a sensação de tempo real da cena, como se estivessemos presenciando um documentário da vida do personagem ou como se ele estivesse prestes a entrar no ringue, aliás as cenas de luta são impressionamente poderosas e sublimamente bem realizadas e executadas pelo diretor. Outro aspecto importante é que o diretor utiliza muita bem os poucos ocorridos entre os personagens no roteiro, e os explora de maneira abrangente e refletiva, através de um estudo detalhado e objetivo do qual submete-os a um ponto inicial e final na trama. Falar da fita e esquecer de suas atuações é um pecado, louvando a bela composição de seu trio principal.

Marisa Tomei e Evan Rachel Wood desempenham seu papel com méritos, passando a dramaticidade necessária nas telas. Já Rourke faz mesmo seu retorno triunfal, nos passando um personagem tão sereno e indeciso, simples e complexo, mas acima de tudo triste e solitário, o levando a tomar suas decisões. É dele o principal motivo de nos apegarmos tanto ao personagem e idem a mesma razão que nos faz quase chorar no brilhante e inesquecível ato final do longa, já que na minha opinião (talvez pode ter SPOILER à frente) o verdadeiro desfecho da trama fica implícito no fundo preto da fita, nos poupando do que seria uma tristeza ainda maior e nos confortando com a disparada melhor música do ano ´´The Wrestler``, cantada por Bruce Springsteen, e inexplicavelmente ignorada pela Academia, não tem como entender mesmo. Aplausos para, infelizmente, um dos longas mais injustiçados do ano.

Cotação: 9.0

Torcida no Oscar: Melhor Ator (Mickey Rourke)
Que pena não estar concorrendo: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Canção.

****1/2

Milk - A Voz da Igualdade


Título original: Milk
Ano de lançamento (E.U.A): 2008
Direção: Gus Van Sant

Com um elenco formidável e um diretor bastante habilidoso e inteligente o longa chega na disputa abordando uma temática polêmica, e queira ou não, adorada pelos membros da Academia. A vida real de Harvey Milk (Sean Penn), um ativista político assumidamente gay e após ir morar com seu namorado Scott (James Franco) decide formar uma coligação com outros homossexuais e alianças partidárias, promovendo-o a tentar por diversas vezes ocupar cargos para a cidade de San Francisco, e quando finalmente consegue, torna-se um símbolo do homossexualismo no país, enquanto passa a pôr seus ideiais e pensamentos em prática dentro da conservadora política americana. Isto desencadeia obviamente na contrariedade de muitos, dentre eles um ex-suposto aliado; Dan White (Josh Brolin). Visualmente (não emocionalmente) mais forte do que ´´O Segredo de Bokeback Moutain`` esta película adota o tema do homossexualisto de maneira natural, já que tudo visto na tela é uma história real.

Todos, e são muitos, estão excelentes nos seus papéis. Josh Brolin passa um realismo incrivel e exemplar ao seu personagem, James Franco coloca boa parte do drama pessoal da fita à prova. Não esquecer do sempre ótimo Emile Hirsch e claro do astro da obra Sean Penn. Sua transformação física e sobretudo intelectual é fantástica, afinal lembremos da real personalidade do ator. Sempre incansável Penn se entrega totalmente ao papel. Gus Van Sant assina mais um bom trabalho de direção no seu currículo, analisando inteligentemente cada personagem que vemos na tela e digerindo a trama de forma madura, mas peca um pouco ao deixar o longa entrar num ritmo lento, ficando cansativo e entediante em algumas sequências. Ignorando o erro o grande mérito do longa vai para seu roteiro, que desde do início se mostra claramente uma trama de política, mas ao dar espaço para o intímo e peculiar dos vários personas, a fita transcede uma naturalidade simbólica, além de manter sempre uma concordância entre as diversas fases demonstradas, ajudada pela eficiente edição da obra. Um filme de política, que abrindo espaço para o intímo dos personagens, torna-se um drama inteligente.

Cotação: 8.0

Torcida no Oscar: Melhor Roteiro Original
Que pena não ser candidato: todas foram indicadas.

****

Frost/Nixon


Título original: Frost/Nixon
Ano de lançamento (E.U.A): 2008
Direção: Ron Howard

Diretor irregular e criticado por muitos Ron Howard conseguiu sua segunda indicação ao Oscar (na primeira ganhou pelo bom, mas não excelente ´´Uma Mente Brilhante``), indicação que na minha opinião foi forçada e pouco merecida, já que sua direção é apenas normal em comparação a outras muito mais fortes vistas no ano. 3 anos após sua renúncia o ex-presidente americano Richard Nixon (Frank Langella) aceita o convite para dar uma entrevista num programa do australiano David Frost (Michael Sheen), onde serão debatidos detalhes e obscuridades de seu governo. Nixon planejava dobrar fácil Frost e assim conseguir uma boa imagem do povo americano, mas durante 4 noites o que se sucede é uma batalha de palavras e conceitos, até que apenas um seria o vencedor, neste caso ou Nixon consegueria sua boa imagem ou Frost pioraria a já péssima imagem do político.

O filme não chega a ser ruim, mas está longe de ser uma grande coisa. Temos um enfoque político e cultural interessante sobre a sociedade americana, onde Howard acerta em passar a tensão precisa nas cenas de debate. O forte do longa são as atuações (único de ótimo na fita), não só de Langella que faz um Nixon tão perfeito, aliás em nada fisicamente ambos se parecem, mas ao capturar a alma e a essência do presidente, o resultado se torna fantástico. Michael Sheen nos oferece mais um trabalho competente, assim como o resto do elenco. Mas o que mais me desagradou no longa foi ver a incapacidade de Ron Howard em equilibar a intimidade e a vida política dos personagens (feito com proeza em ´´Milk``), pois se o filme estuda muito pouco o pessoal dos envolvidos, o faz de maneira muito lesa, não conseguindo passar o drama necessário para a trama. Consequencia disto surge que o filme apenas empolga o espectador a partir do terceiro debate. Com uma edição inteligente, uma trilha sonora eficiente e um roteiro bom, mas mal interpretado, ´´Frost/Nixon`` não é ruim, é apenas descartável.

Cotação: 6.5

Torcida no Oscar: none
Que pena não ser candidato: está sendo candidato até demais.

***1/2

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O Leitor

Nossa... para não cair em esquecimento total, vim escrever um breve post no blog, do qual deve retornar à ativa em meados desta semana. E nada melhor que voltar à ativa comentando sobre os filmes indicados ao Oscar, antes de continuar o BDC Awards 2009.
Título original: The Reader
Ano de lançamento (E.U.A): 2008
Direção: Stephen Daldry

Subestimado por muitos na corrida do Oscar, ´´O Leitor`` surpreendeu ao chegar com a dupla indicação filme/diretor, além de elevar Winslet à merecida categoria principal de melhor atriz. A Academia adora o Daldry e não é por menos, todos os seus filmes são belos e tocantes, envolvendo um drama interior e interpessoal notável em seus personagens, o que faz com que estes tomem rumos totalmente diferentes do que imaginávamos. E isto acontece com proeza no seu novo longa, contando ainda com uma abordagem narrativa divergente das demais quando estuda-se uma temática tão polêmica como o nazismo, utiliza-se no longa um estilo de imagem diferente, não os colocando como monstros, mas como seres que cometeram erros inapagáveis e destruidores, e que chegaram a compartilhar sentimentos verdadeiros com outros como o relacionamento entre os protagonistas.

Michael Berg (David Kross/Ralph Fiennes) é em 1995 um bem sucedido advogado, separado e pai de uma filha. Mas ele manteve um segredo durante toda a sua vida. Em 1958 aos seus 15 anos, numa Alemnha em plena recuperação pós-guerra, ele se envolveu com uma mulher muito mais velha chamada Hanna Shmitz (Kate Winslet) onde passaram um verão inteiro juntos, apegando-se amorosamente um ao outro, até que Hanna resolveu abandoná-lo. Transtornado e depressivo Michael trata de retornar à sua vida habitual e entra numa faculdade de Direito. É então quando ele vai assistir ao julgamento de 6 mulheres que foram oficiais nazitas durante a Segunda Guerra, acusadas de crimes severos e monstruosos. Uma dessas mulheres é Hanna e Michael se vê abalado ao ter consciência da verdadeira face de seu amor juvenil. A cada sessão ele descobre mais sobre a moça, até que num certo dia onde precisam da escrita da acusada para validar uma prova ela se rejeita e diz não ser necessário, confirmando a prova. Michael então percebe o verdadeiro motivo de sua atitude; ela não sabe ler e sempre escondeu isso, relembrando os romances que ele recitava para Hanna, enquanto esta apenas escutava e nunca fazia questão de ler por si própria.

Indeciso entre revelar seu segredo ou não ao tribunal, ele decide escondê-lo pelo resto da vida, e isso trará a ambos vastas consequências nas suas vidas, na parte pessoal do próprio Michael e no rumo que Hanna toma. Adotando uma narrativa de vai-e-vem, mas contínua, o roteiro do longa destaca-se como um de seus melhores aspectos, balanceando bem as fases do personagem e estudando-os e descobrindo-os de maneira satisfatória conoforme os anos vão passando, se posicionando a todo momento como um drama sentimental bastante parecido àquele velho estilo de filmagem do cinema europeu. E Daldry consegue mais uma vez pôr seus conceitos em prática, aproveitando da situação dos personagens e colocando-os em conflito com eles mesmos, mas sempre utilizando um aspecto simplório fazendo deles pessoas comuns em momentos incomuns e inesperados. Maduro e consciente o diretor nunca perde o foco da película nas diversas fases do longa, salvando o espectador da confusão e sempre mantendo uma concordância entre os fatos, uma continuidade.

A parte mais brilhante do longa é claro o momento em que Daldry dedica-se apenas a estudar o relacionamento entre os dois, mantendo um tom de romance, drama e suspense incrível, o que faz que se o filme fosse só aquilo já daria um excelente resultado. Por isso explica-se o fato de na última fase a fita perder um pouco de sua qualidade dramática, nos dando saudades da época de início da projeção. Winslet vai ganhar o Oscar, e merecidamente, já que a atriz é passiva de uma serenidade e curiosidade incrível para sua personagem e ao contrário do que esperávamos não nos faz odiá-la (e eu odeio demais qualquer coisa ligada ao nazismo). Ralph Fiennes, como sempre, faz um trabalho excelente (é até clichê ficar repetindo isso), o talento do ator é estupendo e brilhante. Outro que também atua tão brilhantemente no longa é David Kross (injustamente esnobado nas premiações), pois afinal ele carrega grande parte do drama da película nas suas costas. Com qualidades técnicas irretocáveis, inclusive o sempre fantástico Roger Deakins na fotografia, ´´O Leitor`` é um filme que merece estar entre os 5 finalistas, sendo meu terceiro preferido dentre os indicados, mas talvez nem entraria no meu top 5, acho na verdade que por bem pouco não entraria.
Cotação: 8.5

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button


Título original: The Curious Case of Benjamin Button
Ano de lançamento (E.U.A): 2008
Direção: David Fincher

Diretor extremamente talentoso, David Fincher vem assinando projetos dos mais procurados e aclamados em Hollywood, tanto no seu último longa (o esnobado e injustiçado pelas premiações ´´Zodíaco``) como agora na sua mais nova obra, novamente aclamada pela crítica e finalmente embarcando nas principais premiações, com grandes chances de ser o vencedor do Oscar. Adaptado do conto de F. Scott Fitzgerald (que você lê em inglês aqui) o longa conta a fantasiosa e belíssima história de Benjamin Button, um homem que nasceu com as feições e depedências físicas de um idoso, mas que ao passar dos anos, estranhamente começa a rejuvenescer e ganhar aspectos e qualidades cada vez mais joviais, à medida que vive de encontros e desencontros com o amor de sua vida. Dentre os longas da temporada do Oscar este é sem dúvidas um dos trabalhos mais brilhantes, para mim ficando bem pouco, mas bem pouco mesmo, atrás apenas de ´´Slumdog Millionaire``, de Danny Boyle.

No fim da Primeira Grande Guerra o senhor Thomas Button (dono da frábrica de botões) estava aflito. Sua mulher estava prestes a ter seu filho no parto. Não resistindo ela morreu e fez o marido prometer que ele cuidaria da criança, mas ao ver o recém-nascido o Sr. button assustou-se, vira uma deformação, ´´um bebê de aparentemente mais de 80 anos de idade``. Não conseguindo matá-lo abandonou o filho, deixando-o num abrigo de idosos, onde fora achado por Queenie (Taraj P. Henson), uma funcionária do abrigo e que passou a cuidar do estranho bêbe. Diferente do que os médicos previam, Benjamin Button (Brad Pitt) ao invés de morrer logo, foi ficando cada vez mais novo, forte e virtuoso, chegando a conhecer uma garotinha bem nova, chamada Daisy, da qual logo ficou grande amigo. Quando Benjamin sentiu-se capaz de deixar sua casa e sua mãe adotiva, decidiu sair afora e ver o que o esperava. Enquanto ficava mais jovem, conhecia novas pessoas, novos lugares, e ia inclusive à guerra, nunca chegou a esquecer Daisy, até que um dia, quando este retornou, ambos se encontraram, e passaram a viver sua fabulosa história de amor, repleta de decepções, controvérsias, e encontros e desencontros, à medida que ambos envelhecem e Benjamin se torna cada vez mais jovem aos olhos da cada vez mais velha Daisy.

Com qualidades técnicas espetaculares, esta se torna uma obra do conjunto, onde percebemos a total importância de qualquer um que seja seu quesito. A maquiagem e os efeitos especiais são fantásticos e necessariamente realistas, acompanhados de uma direção de arte perfeita e uma fotografia primorosa, passando de maneira inteligente o clima da época. A montagem ganha um aspecto primordial na passagem de tempo, fazendo com que o personagem sempre entre em concordância com o espectador, e sempre matendo um bom ritmo nas demais fases da vida de Benjamin, enquanto como uma grande ironia e antítese envelhece e rejuvenesce. A trilha de Alexandre Desplat nada mais é do que esplêndida, maravilhosa em todas suas melodias, romântica, divertida, engraçada e poética. Aliás poesia seria o principal elemento a ser descrito no longa. Afinal de contas Eric Roth praticamente reinventa a história e faz um roteiro muito mais completo, abrangente e realista, além de mudar o rumo da trama, de maneira que a faz muito superior ao próprio conto em que esta foi inspirada (seria um roteiro muito mais original do que adaptado).

Quando afirmo que poesia seria o quesito essencial a adotar no longa não minto. Isso deve-se a todas as qualidades ressaltadas anteriormente, mas sobretudo e com extrema relevância ao trabalho feito pelo seu diretor David Fincher. Fincher utiliza desses aspectos e faz do filme poesia pura. Sua direção poética se torna clara desde do início, quando adotando uma concepção de fábula, ele introduz fantasia e realidade juntas, lado a lado, tristeza e alegria, diversos momentos cômicos (todos membros de um belo humor poético), além do estudo e desenvolvimento intenso dos seus personagens. Outro ponto importante na sua direção foi nunca deixar a fita se tornar cansativa, mesmo com suas longas quase 3 horas de projeção, e isto deve-se ao seu estilo de filmagem, inteligentemente adotado com os devidos aspectos ditos acima sendo conciliados e usados, além de logicamente das atuações fantásticas de todo o elenco. Blanchett passa a mesma dramaticidade em sua personagem desde adolescência até sua idade avançada, prestes a morrer em uma cama de hospital, enquanto Tilda Swinton e Taraj P. Henson representam com enorme facilidade a importância de suas personagens na vida de Button.

Mas é Pitt quem, junto com Fincher, se destaca no longa. Sua atuação é incansável e irresistível, parece que a poesia da trilha, das qualidades artísticas, técnicas e sonoras, do roteiro de Roth e claro da direção de Fincher, penetraram na brilhante atuação do super talentoso ator. Pois lembremos, que é dele uma função indispensável; carregar todo o drama da obra nas suas costas, por quase o filme todo. Enfim ´´O Curioso Caso de Benjamin button`` , merece todos os prêmios possíveis, e embora por um pouquinho a mais, eu ainda prefira ´´Slumdog Millionaire`` ficaria muito triste ao ver Benjamin Button perdendo o Oscar. Portanto torceria para uma vitória de Boyle em direção (que consegue ser superior a Fincher) e talvez num dos dois para levar Best Picture, podendo ainda Brad Pitt ser lembrado por sua brilhante e memorável atuação. E que viva o mundo da poesia, que esta obra única resgata com louvor, se aproximando muito e por pouco não chegando a ser o que chamamos de obra-prima.

Cotação: 9,8

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

A Felicidade Não Se Compra

Título original: It´s a Wonderful Life
Ano de lançamento (E.U.A): 1946
Direção: Frank Capra

Chegando esta época do ano, este talvez seja o filme mais passado nas têves de todo o mundo, e com louvor, ninguém consegue passar uma mensagem tão humana e tocante como a obra-prima clássica de Frank Capra, um imigrante italiano que tinha a enorme facilidade de transformar a vida mundana e simples de uma família americana ou um círculo de amizades, em uma fábula de alegria, tristeza, aventura, surrealismo, e com todo o encanto e a beleza dirigida aos seus filmes fazia desses simples homens verdadeiro heróis, em carne e osso. E ninguém melhor que um bom samaritano como o ícone James Stewart para mergulhar na alma humana e descobrir o verdadeiro sentido da vida. Uma mensagem natalina como esta jamais será alcançada novamente.

A Felicidade Não se Compra é um filme inovador e diria até revolucionário para sua época. A começar pela primeira cena do longa, onde anjos são mostrados através de flashes brilhantes no espaço, e eles têm de atender às diversas rezas de uma cidade inteira por um único homem, George Bailey (James Stewart). O anjo Clarence (Henry Travers) é chamado para ajudar no caso e com isso ele ganharia finalmente suas tão amejadas asas. Para saber mais sobre o humano Clarence então tem a oportunidade de assistir flashes-back da vida de George Bailey. É através desse método um pouco incomum que somos apresentados à intimidade de George, inicialmente um garoto que salvara a vida do irmão num ocorrido, e depois um jovem que queria sair viajando pelo mundo, mas após a morte de seu pai se vê na obrigação de assumir a firma herdada, para que esta não caia nas mãos do milionário e egoísta Potter (Lionel Barrymore).

O vilão do longa é apresentado como um rico, frio e egocêntrico capitalista, enquanto o herói um idealista e humilde George Bailey, que faz de tudo para manter sua firma e ajudar as pessoas da cidade (financiando casas e liberando empréstimos), já que seu banco seria o último impecilho para o senhor Potter se apoderar de toda a cidade. George se casa com sua amiga de infância Mary (Donna Reed) e continua preso na pequena cidade natal, sendo conhecido e amado por quase todos. Num 24 de dezembro uma fatalidade acontece. O tio de George também trabalhador do banco perde o dinheiro que deveria usar para pagar as contas da firma, perde justamente por acidente para Potter, que não devolve o dinheiro e vê uma oportunidade de acabar com o negócio dos Baileys. Ao saber que poderia ser preso e ter sua firma fechada George entra em desespero e após beber muito resolve cometer suicído.

Para impedi-lo entra o anjo Clarence em cena e faz uma proposta a George, ele resolve mostrá-lo como seria o mundo se ele não tivesse nascido. George, pensando que estava ao lado de um louco, volta com à cidade para se embebedar novamente, mas agora esta não se chamava mais Bedford Falls e sim Pottersville, seus vários amigos não o conheciam e tinham uma vida completamente diferente, alguns rudes e violentos, outros por não terem George para ajudá-los estavam pobres e miseráveis, sua firma havia fechado logo após a morte de seu pai e seu tio tinha sido internado num manicômio, seu irmão tinha morrido aos 9 anos afogado (e os soldados de um navio durante a guerra tinham morrido, pois o irmão de George não estava ali para salvá-los), pois George não estava lá para salvá-lo do acidente, o amor de sua vida Mary era uma solteirona solitária. Ele aí se dá conta do verdadeiro valor da vida.

Capra consegue com uma simples e comum história realizar um verdadeiro conto natalino e uma fábula inesquecível, utilizando de recursos então novos na época, como a imagem congelada, a narração em off de um personagem onipresente e o drama humano mais realista possível, passado em todos os seus longas. Conta ainda com a ajuda das impecáveis e memoráveis atuações, principalmente Jimmy Stewart, transformando em símbolo da alegria e felicidade após esse filme. E realmente este é o motivo de se viver, saber que a todo momento, voluntário ou não, nós interferimos na vida de outras pessoas, e que muita gente nos dar valor e sentiria ou teria sua vida mudada caso nós morressemos, e se o final do longa é um dos mais belos e emocionantes desfechos já proprocionados na história do cinema não é a toa, pois ele nos dar vontade de sair beijando amigos e familiares, desejando feliz natal e demonstrando o quanto eles são idem importantes na nossa vida.

Cotação: 10

Portanto para todos um FELIZ NATAL! E que levem a mensagem de George Bailey consigo não só na festa mais à tarde, mas para toda a vida, afinal de contas ´´it´s a wonderful life``. Muitos filmes de presente rsrs e muita paz, obrigado a todos que acompanharam esse blog durante o ano de 2008.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Virada Cinematográfica

O cinecult, pelo cinemark, passou a realizar a virada cinematográfica aqui na minha cidade (Aracaju-SE), e pela madrugada deste sábado para domingo fui para a terceira edição do evento, inclusive acompanhado do nosso amigo cinéfilo Marcel (Talking About Movies), onde foram exibidos a partir de meia-noite os filmes ´´Leonera``, Filme Supresa: ´´Feliz Natal`` e ´´Control``, longas que pelo menos por aqui só devem entrar em sessão pelo mesmo cinecult ou talvez nunca entrem. Primeiramente parabéns aos organizadores do evento, que reuniu até bastante gente, e sim, respondendo principalmente para quem nos consideram loucos por tomarmos essa atitude, sim, vale a pena virar a madrugada assistindo bons filmes. Farei agora um breve comentário sobre os três longas exibidos.


Leonera (Pablo Trapero, 2008): Julia (Martina Gusman) é encontrada ao lado dos corpos ensanguentados de Nahuel e Ramiro. Ramiro consegue sobreviver e Julia é presa pela suposta autoria do ocorrido. Grávida de 2 meses, ela é enviada a uma penintênciária especial para mães reclusas, onde teria direito de conviver com o filho dentro da prisão até seus 4 anos de idade. Após o menino nascer ela vai fazendo novas amizades com outras mães detentas, à medida que se apega cada vez mais ao seu filho. As atuações são impecáveis, em especial para Martina que para cada minuto que passa desenvolve e amadurece mais sua atuação. O roteiro nada leve tem uma temática totalmente complexa e bruta, devendo ser altamente controlado por uma boa direção, e está aí o grande destaque do longa argentino. A direção de Trapero é simplesmente fabulosa, havendo a necessidade de ser organizada e centrada, por filmar as maiorias das cenas num presídio, além de saber conduzir o elenco de maneira sensata, ainda mais por se tratar das várias crianças em cena a todo momento. Um exemplo claro desta detalhista e organizada direção são os vários planos-sequência, magistralmente bem realizados, em menção especial para aquele que ela sái do presídio para ir visitar o filho. Pode ser um forte concorrente ao Oscar.
Cotação: 8.5


Feliz Natal (Selton Mello, 2008): Um filme natalino intitulado ´´feliz natal``onde aborda-se uma família que de feliz não tem absolutamente nada. Uma visão melancólica do espírito natalino. Caio (Leonardo Medeiros) retorna após muitos anos à casa da família, em plena festa de natal. Ao tentar reaproximar-se de todos ele faz uma reflexão sobre sua vida e percebe a total desgraça individual do qual cada membro da família que este se separou, se encontram. É um drama principalmente pessoal e psicológico, solitário. Selton estréia bem na direção ao utilizar uma fotografia escura (mesmo com as luzes de natal) e uma montagem que quase nunca se move e fixa-se bem no rosto dos personagens, procurando não demonstrar o que ocorre ao redor. Porém o destaque sem dúvidas vai para o humor negro presente no longa, sobretudo o garotinho com sua inocência encantadora. Mas sinceramente tenho de confessar, não fui capaz de entender qual a verdadeira intenção do longa, se esta existe ou ficou implícita por demais. Portanto o resultado é positivo, a intenção eu não saberia dizer.
Cotação: 7.0


Control (Anton Corbijin, 2007): A cinebiografia de Ian Curtis, vocalista da lendária banda inglesa ´´Joy Division``, que aos 23 anos de idade no auge contínuo de seu sucesso, se enforcou. Essa pequena sinopse deixaria qualquer um triste e o longa poderia se tornar completamente melancólico, mas não é este o caso de Control. O filme sempre procura manter o ritmo frenético de Ian e a banda, e entre ele e sua esposa, e idem com seu amor extra-conjugal, justamente as três correntes de Ian do qual ele mesmo fez com que os levasse a ruína. Ao registrar a fotografia em p&b o diretor consegue refletir o visual da época e recria bem através de takes bem estruturados a visão do mundo do cantor. O destaque porém, são as atuações, de Samantha Morton, como a esposa traída e apaixonada, ou da espetacular e peculiar atuação de Sam Riley, que consegue recriar Ian da sua maneira desleixada e melancólica, e que apesar de todo o suporte que tinha, era triste e infeliz consigo mesmo, algo que ele não podia aceitar. A história é trágica e chocante, porém o legado de Ian Curtis e sua Joy Division ficou, e justamente por isso estou escutando agora uma das suas mais famosas músicas ´´love will tear us apart``.
Cotação: 8.0

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira



Título original: Blindness
Ano de lançamento (Brasil/Canadá/Japão): 2008
Direção: Fernando Meirelles

Nossa! Finalmente de volta!
Fui repentinamente forçado a me ausentar por um certo tempo sem ter a oportunidade de dar satisfações, pc quebrado, semanas de prova na faculdade, aulas da auto-escola. Enfim, agora estou de volta e com atualizações muito mais regulares, podem estar certos disso.

Finalmente também digo por ter assistido Ensaio Sobre a Cegueira, filme que estreou por aqui na minha cidade cerca de quase um mês depois da estréia nacional. Corri para o cinema assim que soube da excelente notícia. Afinal li o livro fabuloso de José Saramago e estava muito ansioso acerca do filme. Antes de nada vale ressaltar o grande casting além de um ótimo diretor do qual o filme contava. Meirelles vem fazendo cada vez mais sucesso mundo afora após o sucesso internacional de sua obra-prima Cidade de Deus. E seu grande mérito neste longa é aprofundar-se no interior dos personagens, assim como feito no livro, e tentar passar a naturalidade a todo momento como nas boas cenas de humor e casualidades que ocorrem. Penso ainda que no primeiro quesito ele e o roteirista poderiam ter se aprofundado mais.

Aparentemente está a acontecer uma epidemia de cegueira pelo país, e os primeiros casos além dos que tiveram contato com estes são mandados para uma quarentena sobre investigação. O número de grupos aumenta cada vez mais e a quarentena é isolada e vigiada pelos soldados. Uma mulher simples esconde que consegue enxergar perfeitamente e não fora ainda afetada pela ´´treva branca``. À medida que a convivência vai ficando insuportável e desumana, diante de mortes, estupros, fome, sujeira intolerável, e após um incêndio provocar a saída forçada pelo instinto de sobrevivência destes da quarentena a mulher que enxerga (mulher do médico) percebe não haver mais soldado algum por ali, além do portão estar aberto, e assim todos estarem livres. Juntam-se a um grupo ela, seu marido e mais 5 por quem se aproximaram (os primeiros casos na verdade), estes um casal, um homem de idade, um garotinho e uma bela jovem.

Assustam-se com o que sentem, e vê, a mulher do médico; todos estavam cegos e a cidade estava ao colapso, suja e acabada, sem energia e comunicação. Todos um bando de cegos a procurarem apenas por comida e buscando a sobrevivência, até quando esta poderia durar. Esta mulher então resolve guia-los e ajudá-los por ser a única aparentemente que podia ver, ver aliás a total desgraça e dependência humana. O livro é fantástico em todos os sentidos. Meirelles até tenta passar o mesmo drama humano que se sente no livro, mas falha em certos aspectos. Estudar por mais o interior dos personagens, dentre eles o rapazinho estrábico que é uma triste e sublime metáfora do livro, além de poder junto ao seu roteirista ter dedicado mais cenas que pudessem analisar mais detalhadamente os principais personagens, como por exemplo a não filmada (creio eu) parte do livro em que visita-se a casa de três deles.

Outro exemplo que pude retirar foi o fato do filme dedicar apenas uma cena a um dos personagens mais importantes do livro na minha opinião; o cão das lágrimas. Este cão por diversas vezes na obra de Saramago se mostra muito mais humano do que os próprios, e embora houvesse a muito bem dirigida cena em que este aparece pela primeira vez enxugando as lágrimas da mulher do médico mesmo assim não soa o bastante. Reparem inclusive como nessa cena enfatiza-se cães comendo um humano morto ao chão e logo depois passa este cão das lágrimas e em vez de se juntar aos outros caninos vai em direção à mulher. Seria ótimo então mais cenas como essa, e mais cenas de seus próprios personagens, seus peculiares como bem mostrado no livro. O final foi um pouco adiantado.

Mas nenhum desses problemas retiram o mérito do bom filme, aliás por algumas vezes Meirelles demonstra o drama humano do longa (como nas duas cenas da fogueira do casal) e o afasta de ser um grande épico cheio de aventura e terror. O filme é um ensaio sobre a cegueira, assim como seu livro, uma hipótese de como seria diante de uma sociedade tão burocrática e degradante como a qual nos encontramos hoje. Um grande aspecto da direção de Meirelles é a naturalidade passada nos seus filmes, e neste brilhantemente enfatizada nas todas ótimas cenas de humor. Bernal imitando Stevie Wonder? Ótima sacada do roteiro. Aliás a atuação de Bernal embora pequena é espetacular, ele interpreta um moleque, apenas um moleque que tenta se aproveitar por portar uma arma. Todo o elenco se comportou bem e soube com a ajuda de Meirelles passar a devida naturalidade e dramaticidade necessária para o filme, com maior destaque para Ruffalo e Alice Braga, além da eficiente mas não excelente atuação da Julianne.

Uma trilha sonora que para muitos possa soar impaciente, mas é uma verdadeira perfeição diante das cenas filmadas. A fotografia claríssima e a montagem confusa por vezes parecem exageradas, mas serve para demonstrar um pouco do mundo em que os cegos estavam enfretando. O filme é como seu livro um estudo dos cegos, dos cegos que já eram cegos, dos cegos que sempre foram cegos e nunca tiveram a capacidade de enxergar isto.

Cotação: 8.0

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Embriagado de Amor


Título original: Punch-Drunk Love
Ano de lançameto (E.U.A): 2002
Direção: Paul Thomas Anderson

Considerado por muitos um dos melhores diretores da atualidade e de sua geração (por merecimento) o cultuado e já célebre Paul Thomas Anderson possui no seu curto currículo de longas invejáveis películas, todas acima da média e queira ou não capazes de serem denominadas obra-primas, vide ´´Boogie Nights`` , ´´Magnólia`` e claro um filme fenomenal que se tornará um clássico do cinema, ´´Sangue Negro`` (ainda não assisti ´´Jogada de Risco``). Outro que não podemos desfalcar desta sua gloriosa lista é um filme simplesmente encantador e interessante e que, não fosse pelo roteiro e direção absolutamente perfeitas de P.T.A talvez não seria tão lembrado como foi, ainda que pouco. Só de pensar que este homem conseguiu retirar de Adam Sandler uma atuação ao menos soberba, da qual nem ele mesmo acreditava ser capaz.

Barry Egan (Adam Sandler) é um pequeno empresário que além de passar por certas dificuldades financeiras, possui um certo descontrole emocional resultado de traumas tidos da sua infância. Seu mundo seria completamente solitário não fosse suas sete irmãs que tentam integrá-lo à família, sabendo do seu problema. Com idéias altamente mirabolantes e sem nexo algum e ataques de raiva e ansiedade constantes ele tenta prosseguir com a vida até que conhece Lena Leonard (Emily Watson), amiga de sua irmã e por quem ele repentinamente se apaixona. Frustrado com a vida e a solidão, à noite ele liga para um sex-fone a fim apenas de conversar. Na mãnha seguinte a garota do telefone liga de volta pedindo dinheiro a Barry e ao recusar ela passa a fazer ameaças, incluindo uma grande rede ilegal que tornam a perseguir e ameaçar o rapaz.

Com todos esses problemas ele decide lutar até o fim pelo amor de Lena e enfrentar aos mafiosos, às complicações cotidinas e principalmente a si mesmo, ao seu excêntrico e conturbardo mundo. Como demonstrado o longa provém de um roteiro impressionante, cheio de reviravoltas e diferentes temáticas ao longo do filme. Roteiro assinado por ele mesmo; Paul Thomas Anderson, que diante de um roteiro incrível parte para uma direção impecável e rica principalmente nos pequenos detalhes, assim como em ´´Sangue Negro``. Para uma direção perfeita P.T.A une-se à fotografia, montagem e principalmente trilha sonora do filme. Repare por exemplo no início do longa os takes de Barry no meio da rua completamente vazia, ajudando a formar a solidão do personagem.

A trilha foi claramente supervisionada pelo diretor. Para tentar passar o mundo de Barry são músicas irritantes e no maior volume que quase não conseguimos escutar sua voz. Mistura de tambor com flauta, piano, saxofone, retrata seu mundo prestes a explodir como visto na cena em que ele tenta vender uma lâmpada à medida que suas sete irmãs ligam para seu trabalho. Temos também a cena em que ele está nervoso ao telefone (e nós também por causa da trilha e do movimento da câmera acompanhando Barry) e quando finalmente tem um ataque de raiva a música para; ele explodiu. E não é só com a trilha sonora que o diretor demonstra isso, na casa das irmãs o barulho irritante de suas sete irmãs conversando é o suficiente para notar-se sua impaciência até ter seu ataque de raiva. Outra sequência de detalhes incríveis no longa; quando Barry decide viajar ao Havaí e encontrar sua amada, começa na trilha uma fabulosa música (´´He needs me``, de Shelly Duvall), que só pára quando ele a encontra, como se fosse uma saga. E note também a cena em que ele está num telefone público e ao finalmente conseguir falar com Lena a luz do farol de uma moto ilumina Barry e o telefone.

Enfim, como visto em ´´Sangue Negro`` o diretor transborda para as telas um detalhismo e perfeccionismo intransigentes no longa. Adam Sandler está surpreendentemente excelente, sem muito de suas caretas e sotaques chatos, ele definitivamente incorpora o personagem e ofusca a ótima Emily Blunt, além de uma pequena, mas marcante participação do fantástico Philip Seymour Hoffman. ´´Embriagado de Amor`` é uma grande surpresa, devido ao talento de realmente um dos melhores da atualidade; Paul Thomas Anderson.

Cotação: 9.0

terça-feira, 29 de julho de 2008

A Época da Inocência


Título original: The Age of Innocence
Ano de lançamento (E.U.A): 1993
Direção: Martin Scorsese

Como muitos aqui sabem, sou fã fervoroso e declarado de Scorsese. Adoro desde seus clássicos memoráveis até filmes menos renomados e consagrados, mas não por isso menos elogiados. Sua filmografia é espetacular, muitos poucos diretores possuem tamanho acervo de obras de grande qualidade no currículo como ele. Tive uma enorme felicidade ao certo dia recentemente, numa videolocadora, avistar ´´A Época da Inocência``, um dos poucos filmes que faltava para que eu possa completar sua exemplar filmografia. Posso dizer que depois de tanto tempo, já sabia que iria simpatizar com o filme, já que nunca deixaria de gostar de nenhum de seus filmes, nos vários a que assisti. Grande conhecedor de Nova York, Scorsese demonstra um estudo diferente da cidade dos seus demais filmes, ora pela época ora pelo enredo apresentado na trama. Mas suas características incomparáveis são claramente presentes nesta obra.

Nova York, 1870. Newland Archer (Daniel Day-Lewis) é um advogado da alta sociedade aristocrática que como quase todos se submete as tendências e costumes de modo inquestionável que a sociedade impunha. Ele irá se casar com May Welland (Winona Ryder), uma bela jovem meiga e inocente admirada pela responsabilidade de compromisso com os costumes e atitudes da época. Mas após conhecer a Condessa Ellen Oneska (Michelle Pfeiffer), uma mulher linda que havia se separado de seu marido e voltado da Europa, ele começa a sentir desejo e um amor incontrolável e involuntário, contra a sua vontade, que ele nunca esperava sentir, por ninguém menos que a prima de sua noiva. Sendo discriminada pela atual sociedade americana pelos seus ideais liberais na época, ela recebe a ajuda de Archer que tenta defendê-la, devido ao seu amor incontrolável e que passa aos poucos a ser correspondido pela Condessa, chocando-se com as tendências e pensamentos atuais, e chocando-se acima de tudo com a índole de si mesmos.

Com esta trama temos a oportunidade de analisar toda a estrutura da sociedade americana da época, algo bastante similar com ´´Amacord`` de Fellini, mas este logicamente mais cômico. E ninguém melhor que Scorsese para fazer isso. Mais uma vez a narrativa de seu filme conduz a obra, dando-nos uma maior percepção do que estava ocorrendo. Outro ponto fundamental para o perfeito entendimento da obra são os célebres plano-sequências do diretor, aqui muito bem elaborados e realizados, servindo acima de tudo para conhecer os vários personagens da história, quando este junta-se à narrativa. Outro do qual sou fã incondicional é Daniel Day-Lewis e aqui ele faz um dos seus melhores trabalhos. Seu personagem sente um desejo que ele mesmo tenta barrar e impedir que se realize, e percebemos isso através das feições que ele transpõe para a tela (destaque para a cena onde ambos declaram-se un para o outro e tentam lutar e lidar com este sentimento ao mesmo tempo). Michelle e Winona também não deixam por menos, são ótimas, mas diante de Lewis são ofuscadas.

Para os impacientes e menos interessados pode soar um pouco chato e monótono (que é em algumas cenas), mas é um filme calmo e tranquilo com uma poeticidade incrível. Essa poeticidade é também atingida pela trilha sonora e fotografia lindissímas (a cena do píer é sublime na unidão destas duas). Ótimos figurino e direção de arte dando uma verídica imagem da época. Para os fãs ou não de Scorsese, recomendo sem dúvidas.

Cotação: 8.5


quarta-feira, 23 de julho de 2008

Juventude Transviada


Títulgo original: Rebel Without a Cause
Ano de lançamento (E.U.A): 1955
Direção: Nicholas Ray

James Byron Dean; James Dean, tornou-se um dos maiores ícones da história do cinema em um período curto de dois anos, fruto de apenas três grandes clássicos da época: ´´Vidas Amargas``, de Elia Kazan, ´´Assim Caminha a Humanidade``, de George Stevens e ´´Juventude Transviada`` de Nicholas Ray, este considerado por muitos o melhor deste brilhante ator, o filme que define exatamente o que fora James Dean para o mundo. Ele foi o representante dos jovens cansados e inconformados com o sistema de regras e mudanças a que eram submetidos, revoltados e oprimidos, verdadeiros incompreendidos. Portanto este filme demonstra o que foi James Dean, e que após sua infeliz, trágica e precoce morte, o transformou quase que em um símbolo. A sensação que tive ao assistir seus três grandes filmes foi a mesma que tive ao assistir o último filme de Heath Ledger ´´Batman - O Cavaleiro das Trevas``, resolvi então homenageiar Dean ao lembrá-lo e por ter visto recentemente ´´Vidas Amargas```.

Jim Stark (James Dean) é um jovem problemático. Fez os pais se mudarem para várias cidades, devido às confusões do rapaz, até fixarem-se em Los Angeles. Lá Jim é preso em plena madrugada por embriaguez de desordem. Na delegacia ele conhece Judy (Natalie Wood) e Platão (Sal Mineo) e é liberado por um policial que compreende a situação de Jim na casa em que vive, recebendo amor superficial dos pais e cansado da maneira sbumissa como sua mãe trata seu pai. No dia seguinte ele vai à escola e tenta se aproximar de sua vizinha, a própria Judy, no caminho. Logo arranja encrenca com Buzz (Corey Allen), namorado de Judy e líder de uma gangue do colégio, que provoca Jim até seu limite e os dois partem para uma briga de faca. O único amigo de Jim é Jhon Crawford, conhecido como Platão (aparentemente obcecado pela amizade de Jim), o qual Jim também havia conhecido na delegacia e que o acompanha até as montanhas da cidade onde fora marcado entre Jim e Buzz um ´´pega`` de carros.

Com o objetivo de adquirir mais respeito e ganhar atenção de Judy ele vai e durante a disputa (cena clássica do cinema) algo acontece, que mudará o rumo e trará trágicas consequências àqueles jovens. Este filme em si é revolucionário, representa até hoje a rebeldia e a liberdade almejada pelos jovens. Jim não era um garoto revoltado por ser pobre ou miserável, sua rebeldia surgia do seu próprio meio, surgia por ser jovem e precisar voltar-se contra algo, como diz o próprio título em inglês: ´´Rebel Without a Cause``; rebelde sem causa. Seu mundo era o suficiente para transformá-lo num rebelde. Por isso James se tornara uma lenda, ele fora o incompreensivo e detentor das inúmeras vozes de inconformistas da época, queria apenas curtir e livrar-se dos problemas que o cercavam.

As atuações na obra são impecáveis. Dean dispensa mais comentários, sua morte toma dimensões tão absurdamente trágicas quando percebemos o ator que estava nascendo dentro dele, como muitos apontam ele seria um novo Brando. Natalie Wood incorpora uma perfeita patricinha da época enquanto que Sal Mineo faz o tipíco excluído e rejeitado, que ao encontrar um amigo transborda-se na loucura insana entre felicidade e delírio. A direção de Nicholas Ray foi extremamente detalhista e forçamente trabalhada, dá ao filme um universo veridicamente jovem e concreto, na medida em que os personagens ganham formas cada vez mais reais e presentes na nossa sociedade. Um filme exemplar e perfeito para estudar o comportamento dos adolescentes, que são na verdade em sua grande maioria, rebeldes sem causa.

Cotação: 9.0

domingo, 13 de julho de 2008

Serpico





Título original: Serpico
Ano de lançamento (E.U.A): 1973
Direção: Sidney Lumet

Sidney Lumet é um dos grandes diretores do cinema mundial no qual não tem seu devido reconhecimento e consagração merecidas. Já fez grandes clássicos tais como ´´12 Homens e Uma Sentença``, ´´Um Dia de Cão``, ´´Rede de Intrigas``, e continua a fazer ótimos filmes no cenário atual como o muito bem recebido pela crítica ´´Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto``. O filme ´´Serpico``, considerado por muitos a sua melhor obra, é mais um claro exemplo dessa vertente, um filme grandioso de um diretor super competente e magnífico juntando-se a um dos melhores atores da história do cinema; o sempre espetacular Al Pacino. Pacino aliás provou que não queria ser um sexy simbol, mas sim um grande ator, já que este foi seu primeiro filme após ´´O Poderoso Chefão``, que o revelou para o mundo.

A história verídica de Francesco Serpico; Frank Serpico (Al Pacino), um policial recém-formado de origem humilde e simples, o tipíco rapaz adorado por todos em seu antigo bairro. Ao entrar na academia Serpico insiste a todo tempo em mostrar serviço e dar-lhe de tudo para proteger a lei e a sociedade. Eis então que Frank conhece a verdadeira face da polícia de Nova York, ainda de uniforme ele recebe suborno, e aos tempos que vai mudando de cargo percebe mais suborno e corrupção no seu local de trabalho. Todos recebem dinheiro sujo, menos Serpico que fica indignado com seus colegas e a atual situação da corporação policial. Ele decide então denunciar e ir a tribunal depor contra a intransigente situaçaõ que se encontravam os departamentos da cidade, mas comissários, advogados, presidentes da câmara e juízes parecem igonar o fato e Serpico se vê sozinho em perigo com a vida, ameaçada por quase todos com quem convive.

Serpico é um homem solitário, incapaz de demonstrar um verdadeiro amor por uma mulher, já que ele se apaixona acentuadamente pela namorada, mas ela (que o ama mais ainda) nao suporta mais viver naquela situação, onde é excluída da vida do namorado, que preferencia o trabalho e a luta contra a opressão. Um homem inconvencional, um policial de barba e bigode gigantes no melhor estilo ´´hippie``, um homem de poucos amigos (não que ele queira), pois como dito por um policial corrupto no filme: ´´Não se pode confiar num policial que não aceita suborno``. A atuação de Pacino é simplesmente espetacular e comovente, ele incorpora o próprio Serpico e muda seu caminhar e falar, sua própria personalidade, sem deixar de lado o velho Pacino que todos conhecemos; as feições e ataques de raivas que adoramos.

Al não é o único ótimo em Serpico, mas é claramente o de maior destaque e relevância. Bob Blair como um dos únicos fiéis amigos de Serpico também está excelente. Aliás, o tamanho da corrupção é tão abrangente no filme que chegamos a desconfiar deste próprio personagem. A direção de Sidney é primorosa e detalhista, onde destaca-se a bem sucedida tentativa de demonstrar o mundo isolado de Serpico, fruto também da grande montagem e da comovente trilha sonora. E quando o próprio Serpico deixa escapar um pequeno choro no final, reflete sobre tudo que acontece hoje em dia. Sua luta e nossas lutas são em vão contra um sistema que nunca irá mudar.

Cotação: 9.0

terça-feira, 8 de julho de 2008

Os Imperdoáveis




Título original: Unforgiven
Ano de lançamento (E.U.A): 1992
Direção: Clint Eastwood

Clint Eastwood começou sua carreia como ator em 1955 e desde então fez sucesso no mundo inteiro como o homem durão, frio e calculista seja de filmes clássicos de faroeste como nas memoráveis parcerias com Sergio Leone, seja como o policial cabeça dura Dirty Harry, entre vários e vários outros personagens. Sua carreira de ator era brilhante, pois Clint era um ícone das masculinidade na época. Mas sem dúvidas melhor ainda seria sua carreira de diretor, o qual em quase todos suas obras também atuava. Na enorme filmografia deste grandíssimo diretor consta uma película, onde absolvido o aprendizado dos diretores os quais trabalhava (principalmente Leone), Clint fez na minha particular opinião o melhor faroeste de todos os tempos; Os Imperdoáveis. Talvez eu prefira este à aquele por ser mais precisamente um drama de faroeste, dispensando quase todos os clichês do gênero.

Bill Munny (Clint Eastwood) é um ex-pistoleiro assassino que abandonou a vida do crime e vive na miséria com seus dois filhos, frutos da união com sua mulher já morta de quem ele tanto amava. Eis que surge um jovem pistoleiro que oferece a Bill a oportunidade de partir numa caçada para matar dois rapazes que haviam maltratado uma prostituta, e que pagaria 1000 dólares a ele. Decidido de não o fazer Bill mais tardiamente reflete sobre a proposta e convida seu ex-parceiro do crime Ned Logan (Morgan Freeman) para acompanhá-lo e juntos com o jovem pistoleiro buscarem os dois rapazes para assassiná-los. As prostitutas por sua vez espalhavam a oferta de vingança para todos os pistoleiros com quem transavam e a notícia correu por todo o Texas, fazendo com que criminosos como Bob English (Richard Harris) venham à pequena cidade.

Mas o lendário xerife da cidade Little Bill Dagget (Gene Hackman) descobre do ocorrido e assim que Bob chega à cidade, espanca severamente e o prende na frente de todos, para que assim saibam que bandido algum passará impune por lá. Diferente dos famosos personagens de Clint vemos em Bill um homem nervoso e amedontrado do seu passado, claramente abalado e debilitado emocionamente, onde concluimos que no seu estado ele jamais consegueria matar os homens. E a transformação do personagem, praticamente da noite para o dia é fantástica e sublime, resultado de um brilhante roteiro, uma direção inovadora e criativa, além da própria atuação do Clint. A direção de Clint é ainda mais brilhante por dispensar os repetidos clichês do gênero e tomar um estilo de filmagem e continuidade totalmente diferente.

Clint faz não um faroeste propriamente dito, mas sim um drama de faroeste. A história e seus personagens não se baseiam em bandido e mocinho (herói), ele faz detalhadamente um estudo psicológico de cada um dos personagens principais, levando a película a outras dimensões. Todas as atuações são sensacionais, destacando-se Gene Hackman como o simples xerife Little Bill que não aspira medo e tormento em momento algum. Quanto às categorias técnicas são todas perfeitas e de grande encaixe na obra, principalmente a linda e espetacular trilha sonora, além da fotografia que ora frisa o rosto do personagens demonstrando seu interior, ou os ambientes e pasagens de maneira grandiosa. Enfim, uma obra-prima magistral, um dos melhores filmes que tive a oportunidade de assistir.

Little Bill: ´´Você é William Munny, do Missouri, matador de mulheres e crianças.``
Bill Munny: ´´Isso mesmo. Já matei mulheres e crianças. Já matei quase tudo que anda e rasteja na Terra. E estou aqui para matar você Little Bill.``

Cotação: 10