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domingo, 14 de dezembro de 2008

Virada Cinematográfica

O cinecult, pelo cinemark, passou a realizar a virada cinematográfica aqui na minha cidade (Aracaju-SE), e pela madrugada deste sábado para domingo fui para a terceira edição do evento, inclusive acompanhado do nosso amigo cinéfilo Marcel (Talking About Movies), onde foram exibidos a partir de meia-noite os filmes ´´Leonera``, Filme Supresa: ´´Feliz Natal`` e ´´Control``, longas que pelo menos por aqui só devem entrar em sessão pelo mesmo cinecult ou talvez nunca entrem. Primeiramente parabéns aos organizadores do evento, que reuniu até bastante gente, e sim, respondendo principalmente para quem nos consideram loucos por tomarmos essa atitude, sim, vale a pena virar a madrugada assistindo bons filmes. Farei agora um breve comentário sobre os três longas exibidos.


Leonera (Pablo Trapero, 2008): Julia (Martina Gusman) é encontrada ao lado dos corpos ensanguentados de Nahuel e Ramiro. Ramiro consegue sobreviver e Julia é presa pela suposta autoria do ocorrido. Grávida de 2 meses, ela é enviada a uma penintênciária especial para mães reclusas, onde teria direito de conviver com o filho dentro da prisão até seus 4 anos de idade. Após o menino nascer ela vai fazendo novas amizades com outras mães detentas, à medida que se apega cada vez mais ao seu filho. As atuações são impecáveis, em especial para Martina que para cada minuto que passa desenvolve e amadurece mais sua atuação. O roteiro nada leve tem uma temática totalmente complexa e bruta, devendo ser altamente controlado por uma boa direção, e está aí o grande destaque do longa argentino. A direção de Trapero é simplesmente fabulosa, havendo a necessidade de ser organizada e centrada, por filmar as maiorias das cenas num presídio, além de saber conduzir o elenco de maneira sensata, ainda mais por se tratar das várias crianças em cena a todo momento. Um exemplo claro desta detalhista e organizada direção são os vários planos-sequência, magistralmente bem realizados, em menção especial para aquele que ela sái do presídio para ir visitar o filho. Pode ser um forte concorrente ao Oscar.
Cotação: 8.5


Feliz Natal (Selton Mello, 2008): Um filme natalino intitulado ´´feliz natal``onde aborda-se uma família que de feliz não tem absolutamente nada. Uma visão melancólica do espírito natalino. Caio (Leonardo Medeiros) retorna após muitos anos à casa da família, em plena festa de natal. Ao tentar reaproximar-se de todos ele faz uma reflexão sobre sua vida e percebe a total desgraça individual do qual cada membro da família que este se separou, se encontram. É um drama principalmente pessoal e psicológico, solitário. Selton estréia bem na direção ao utilizar uma fotografia escura (mesmo com as luzes de natal) e uma montagem que quase nunca se move e fixa-se bem no rosto dos personagens, procurando não demonstrar o que ocorre ao redor. Porém o destaque sem dúvidas vai para o humor negro presente no longa, sobretudo o garotinho com sua inocência encantadora. Mas sinceramente tenho de confessar, não fui capaz de entender qual a verdadeira intenção do longa, se esta existe ou ficou implícita por demais. Portanto o resultado é positivo, a intenção eu não saberia dizer.
Cotação: 7.0


Control (Anton Corbijin, 2007): A cinebiografia de Ian Curtis, vocalista da lendária banda inglesa ´´Joy Division``, que aos 23 anos de idade no auge contínuo de seu sucesso, se enforcou. Essa pequena sinopse deixaria qualquer um triste e o longa poderia se tornar completamente melancólico, mas não é este o caso de Control. O filme sempre procura manter o ritmo frenético de Ian e a banda, e entre ele e sua esposa, e idem com seu amor extra-conjugal, justamente as três correntes de Ian do qual ele mesmo fez com que os levasse a ruína. Ao registrar a fotografia em p&b o diretor consegue refletir o visual da época e recria bem através de takes bem estruturados a visão do mundo do cantor. O destaque porém, são as atuações, de Samantha Morton, como a esposa traída e apaixonada, ou da espetacular e peculiar atuação de Sam Riley, que consegue recriar Ian da sua maneira desleixada e melancólica, e que apesar de todo o suporte que tinha, era triste e infeliz consigo mesmo, algo que ele não podia aceitar. A história é trágica e chocante, porém o legado de Ian Curtis e sua Joy Division ficou, e justamente por isso estou escutando agora uma das suas mais famosas músicas ´´love will tear us apart``.
Cotação: 8.0

domingo, 2 de novembro de 2008

Última Parada - 174


Títilo original: Última Parada - 174
Ano de lançamento (Brasil): 2008
Direção: Bruno Barreto

Escolhido como representante brasileiro na corrida do Oscar, ´´Última Parada - 174`` de Bruno Barreto possue aquelas mesmas temáticas sociais já adotada em vários outros filmes do excelente cinema nacional. Não fosse o ótimo roteiro e a direção segura de Barreto o filme poderia cair num deja vu sem fim, aliás por que sempre a pobreza tem de ser divulgada mundo afora pelo nosso cinema? Filmes melhores é verdade poderiam ter sido escolhido para tal cargo, mas nenhum desses aspectos tira o mérito do nosso representante como um bom filme, chegando a ser revoltante por baseiar-se numa história real. Ao contrário do que muitos dizem, não considero este filme uma tentativa de vitimizar e romantizar o Sandro. Encarei-o como a biografia de um marginal, apenas um dentre tantos à solta no nosso país, e talvez essa tenha sido a verdadeira intenção do diretor.

Sandro (Michel Gomes) teve realmente uma infância difícil, roubado das mãos de sua mãe por um traficante de drogas ele foi entregue a uma outra mulher que o ´´adotou``. Esta foi brutalmente assassinada por um ladrão e o menino foi morar com a irmã de sua até então mãe. Inconformado ele foge de casa e passa a viver como um menino de rua, onde se perde no mundo das drogas e passa a cometer pequenos furtos e roubos, para mais tardiamente após escapar do ´´massacre da Candelária`` se juntar a Alê Monstro (Marcelo Mello) e fugir da prisão de menores. A partir daí ele se torna um verdadeiro bandido, cometendo assaltos. Sua mãe verdadeira Marisa (Cris Vianna) parte à procura de seu filho, a fim de resgatá-lo daquele mundo e tentar lhe dar uma vida melhor, mas nada poderia convencer Sandro de que ele era apenas um garoto e tinha chance de ser salvo.

Me surpreendeu bastante a direção de Barreto, embora houvesse falhas claras. O principal mérito foi manter o ritmo de uma verdadeira biografia sem que ela caísse no desgosto por se tratar de uma figura transformada em monstro pelo país. Fez uma direção segura e bastante centrada e organizada, mas peca somente em algumas cenas superficiais por demais que poderiam levar o espectador aí sim a pensar dele estar querendo vitimizar o bandido. Outro aspecto importante de sua direção foi não permitir que o filme se tornasse lento, ajudado bastante pela boa fotografia e ótima montagem, mas principalmente pelas ótimas atuações, principalmente do seu protagonista. Parece ter muito futuro esse Michel Gomes. A trilha sonora serve para avisar de que algo terrível e trágico viria a acontecer, e funciona em certo ponto. Um ponto fraco do roteiro e do diretor foi explocar muito pouco o assalto, a parte mais esperada do filme na verdade. Ele foi enfocado como apenas mais uma parte da vida de Sandro, e por esse aspecto o longa perdeu muito de sua tonicidade e realidade. Além de que algumas cenas clichês no momento mais inoportuno (Walquíria gritando ´´Alê``), e revoltante como a de ver um bandido safado como Alê Monstro, que matou uma mulher à sangue frio, derramar lágrimas por Sandro e consolar a sua mãe no enterro.

Lembro como hoje do assalto ao ônibus 174, aliás quem assistia à tv na hora não tem como não lembrar. Como eu disse, a história de Sandro é só mais uma dentre várias, mas também de várias que não seguem o mesmo caminho vermelho deste, e hoje possuem emprego, casa, filhos, esposa. Ele nunca vai ser um herói, muito menos uma vítima. Embora tivesse propício a se tornar aquilo ele teve por diversas vezes a escolha entre o bem e o mal, e sempre escolheu o mal. Poderia continuar morando com a tia e não o fez, poderia ajudar e viver auxiliado pela tia Walquíria (Anna Cotrim) como aparentemente outros meninos fizeram, ou até ter vivido com sua mãe e buscar um outro rumo. Mas não, ele por livre arbítrio escolheu seu caminho e foi justamente isso o que o roteiro de Braulio Mantovani tentou demonstrar. Ninguém nasce para isso ou aquilo. Todos nós temos a oportunidade de escolher se vamos entrar na porta azul ou vermelha. Boa educação e tratamento ajudam na hora de escolher é verdade, mas isto muito mais depende da índole da própria pessoa.

Cotação: 7.5

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira



Título original: Blindness
Ano de lançamento (Brasil/Canadá/Japão): 2008
Direção: Fernando Meirelles

Nossa! Finalmente de volta!
Fui repentinamente forçado a me ausentar por um certo tempo sem ter a oportunidade de dar satisfações, pc quebrado, semanas de prova na faculdade, aulas da auto-escola. Enfim, agora estou de volta e com atualizações muito mais regulares, podem estar certos disso.

Finalmente também digo por ter assistido Ensaio Sobre a Cegueira, filme que estreou por aqui na minha cidade cerca de quase um mês depois da estréia nacional. Corri para o cinema assim que soube da excelente notícia. Afinal li o livro fabuloso de José Saramago e estava muito ansioso acerca do filme. Antes de nada vale ressaltar o grande casting além de um ótimo diretor do qual o filme contava. Meirelles vem fazendo cada vez mais sucesso mundo afora após o sucesso internacional de sua obra-prima Cidade de Deus. E seu grande mérito neste longa é aprofundar-se no interior dos personagens, assim como feito no livro, e tentar passar a naturalidade a todo momento como nas boas cenas de humor e casualidades que ocorrem. Penso ainda que no primeiro quesito ele e o roteirista poderiam ter se aprofundado mais.

Aparentemente está a acontecer uma epidemia de cegueira pelo país, e os primeiros casos além dos que tiveram contato com estes são mandados para uma quarentena sobre investigação. O número de grupos aumenta cada vez mais e a quarentena é isolada e vigiada pelos soldados. Uma mulher simples esconde que consegue enxergar perfeitamente e não fora ainda afetada pela ´´treva branca``. À medida que a convivência vai ficando insuportável e desumana, diante de mortes, estupros, fome, sujeira intolerável, e após um incêndio provocar a saída forçada pelo instinto de sobrevivência destes da quarentena a mulher que enxerga (mulher do médico) percebe não haver mais soldado algum por ali, além do portão estar aberto, e assim todos estarem livres. Juntam-se a um grupo ela, seu marido e mais 5 por quem se aproximaram (os primeiros casos na verdade), estes um casal, um homem de idade, um garotinho e uma bela jovem.

Assustam-se com o que sentem, e vê, a mulher do médico; todos estavam cegos e a cidade estava ao colapso, suja e acabada, sem energia e comunicação. Todos um bando de cegos a procurarem apenas por comida e buscando a sobrevivência, até quando esta poderia durar. Esta mulher então resolve guia-los e ajudá-los por ser a única aparentemente que podia ver, ver aliás a total desgraça e dependência humana. O livro é fantástico em todos os sentidos. Meirelles até tenta passar o mesmo drama humano que se sente no livro, mas falha em certos aspectos. Estudar por mais o interior dos personagens, dentre eles o rapazinho estrábico que é uma triste e sublime metáfora do livro, além de poder junto ao seu roteirista ter dedicado mais cenas que pudessem analisar mais detalhadamente os principais personagens, como por exemplo a não filmada (creio eu) parte do livro em que visita-se a casa de três deles.

Outro exemplo que pude retirar foi o fato do filme dedicar apenas uma cena a um dos personagens mais importantes do livro na minha opinião; o cão das lágrimas. Este cão por diversas vezes na obra de Saramago se mostra muito mais humano do que os próprios, e embora houvesse a muito bem dirigida cena em que este aparece pela primeira vez enxugando as lágrimas da mulher do médico mesmo assim não soa o bastante. Reparem inclusive como nessa cena enfatiza-se cães comendo um humano morto ao chão e logo depois passa este cão das lágrimas e em vez de se juntar aos outros caninos vai em direção à mulher. Seria ótimo então mais cenas como essa, e mais cenas de seus próprios personagens, seus peculiares como bem mostrado no livro. O final foi um pouco adiantado.

Mas nenhum desses problemas retiram o mérito do bom filme, aliás por algumas vezes Meirelles demonstra o drama humano do longa (como nas duas cenas da fogueira do casal) e o afasta de ser um grande épico cheio de aventura e terror. O filme é um ensaio sobre a cegueira, assim como seu livro, uma hipótese de como seria diante de uma sociedade tão burocrática e degradante como a qual nos encontramos hoje. Um grande aspecto da direção de Meirelles é a naturalidade passada nos seus filmes, e neste brilhantemente enfatizada nas todas ótimas cenas de humor. Bernal imitando Stevie Wonder? Ótima sacada do roteiro. Aliás a atuação de Bernal embora pequena é espetacular, ele interpreta um moleque, apenas um moleque que tenta se aproveitar por portar uma arma. Todo o elenco se comportou bem e soube com a ajuda de Meirelles passar a devida naturalidade e dramaticidade necessária para o filme, com maior destaque para Ruffalo e Alice Braga, além da eficiente mas não excelente atuação da Julianne.

Uma trilha sonora que para muitos possa soar impaciente, mas é uma verdadeira perfeição diante das cenas filmadas. A fotografia claríssima e a montagem confusa por vezes parecem exageradas, mas serve para demonstrar um pouco do mundo em que os cegos estavam enfretando. O filme é como seu livro um estudo dos cegos, dos cegos que já eram cegos, dos cegos que sempre foram cegos e nunca tiveram a capacidade de enxergar isto.

Cotação: 8.0

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Estômago


Título original: Estômago
Ano de lançamento (Brasil/Itália): 2007
Direção: Marcos Jorge

João Miguel pode ser considerado como um dos melhores atores nacionais da atualidade, tomando de base seus recentes filmes e analisando que o ator só vem acertando ultimamente, sejam nos projetos muito bem escolhidos ou no talento enorme que verifica-se nos seus trabalhos. Depois de uma pequena ponta em ´´Cidade Baixa`` ele sobrou, e surpreendentemente roubou a cena no sensacional ´´Cinema, Aspirinas e Urubus``, e dentre outros fez ´´O Céu de Suely``, ´´Mutum`` e agora o mais recente ´´Estômago``. Todos ótimos filmes com atuações excelentes que ajudaram a colocá-lo num patamar altíssimo de grande qualidade. Este filme, além de contar com as inspiradas atuações, não só do João, possui um roteiro muito bem escrito e desenvolvido, transportado para o filme de maneira segura pelo iniciante Marcos Jorge.

Raimundo Nonato (João Miguel) é um nordestino que chega a cidade grande com a esperança de uma nova vida. Sem lugar onde ficar ele começa a trabalhar como faxineiro e cozinheiro de um boteco, em troca apenas de moradia e comida. Suas coxinhas ficam famosas e atraem freguesia para o local, como Giovanni (Carlo Briani), dono de um famoso restaurante italiano e que, ciente do talento de Nonato em cozinhar, o contrata. Nonato vai aprendendo e prosperando no novo restaurante e mantém relações com a prostituta Iria (Fabíula Nascimento), na qual ele parece estar apaixonado. Este é na verdade o passado, pois no outro lado da história Nonato está preso pelo que fez no passado (algo que até o final do filme não sabemos o que seria) e divide cela com outros presos, incluindo Bujiú (Babu Santana), o chefão. Quando os outros presos sabem da habilidade culinária de Nonato, ele logo começa a cozinhar para seus companheiros de cela ganhado mais respeito e conhencimento.

A trama do filme se divide entre passado (Nonato livre) e presente (Nonato preso), uma técnica bastante dominada pelos roteiristas e o diretor. Um trabalho em conjunto para que o filme não se torne confuso, grande mérito de ambos. As atuações são todas excelentes, desde do sotaque e timidez nordestina do personagem incorporado por João Miguel, até Fabíula como uma prostituta das ruas (ela engordou bastante para fazer o personagem), Carlo Briani faz um personagem engraçado e sério ao mesmo tempo, e ainda de maior destaque e surpreendente está Babu Santana como o criminoso mandante do presídio. As piadas de humor negro, altamente de bom gosto, servem para amenizar a situação e retirar a naturalidade dos atores, algo muito forte na película.

Segundo longa de ficção do diretor Marcos Jorge, que consegue manter o clima de humor e drama bem equilibrados e correlacionados na trama. Ótima trilha sonora alternando-se na sua intensidade e suavidade de acordo com os diferentes momentos da obra. Após ver o final do filme, fiquei bastante surpreso e chocado, mas parando e refletindo pode-se ver que foi um pouco exagerado e desnecessário, principalmente a última frase falada ou pensada pelo personagem de João Miguel. Queria ser surpreendente ? Com certeza foi, mas forçou um pouco a barra para chegar a este ponto, mas nada que estrague o filme, que ainda assim é ótimo e mais uma vertente de que o cinema nacional está progredindo. Tem muitas merdas feitas pelo nosso cinema ? Demais. Mas temos muitas coisas boas, sem patriotismo e apelação.

Cotação: 8.0