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segunda-feira, 11 de maio de 2009

A Marcha dos Pinguins


Título original: La Marche de L´Emperour
Ano de lançamento (E.U.A/França):
Direção: Luc Jacquet

Imenso fã de documentários sempre procurei acompanhar o que de novo surgia no gênero atualmente, certas vezes um documentário nos transborda tanto para aquele mundo, aquela situação, que nos sentimos inúteis ou até perplexos, já que diferente de um longa de ficção, aquilo está realmente acontecendo, é o verdadeiro mundo real, a trama existente abordada por uma determinada temática. Porém tinha receios quanto ao documentário francês vencedor do Oscar ´´A Marcha dos Pinguins``, pensava que poderia se tornar só mais uma aula educacional dos canais National Geographic ou Animal Planet (ótimas, mas com um certo tempo enjoativas). Entretanto o longa francês em nada se parece com o a visão adotada pelas filmagens do canal, já que possuindo um estilo de narrativa totalmente diferente e inovadora a percepcção que retiramos da trama se encaixa perfeitamente na denúncia de uma visão egoísta nossa, ao ponto que forçando-nos a encarar e ver aqueles animas como seres-humanos, sentimos pena, torcemos, e sim, quase choramos. Eu mesmo repeti comigo mesmo por diversas vezes ao longo da película; ´´gente..``, ´´povo...``, ´´menino...``. E em contrapartida somos obrigados a perceber que seres ditos irracionais possuem uma trajetória de vida mais condizente com a de um ser extremamente racional.

Na Antártica (local mais inabitável da Terra), a cada inverno, milhares de pinguins imperadores deixam o confortável habitat do oceano e sobem à terra congelada rumo interior, onde todos inexplicavelmente marcham ao terreno onde encontrarão um par para a reprodução de sua espécie. Essa épica e emocionante trajetória das diversas fases da reprodução e criação dos filhotes é mostrada passo a passo, desde da saída destes para o solo, o encontro com todos, o caminhar rumo ao local, as uniões dos pares, a reprodução, o surgimento do ovo, a caça à comida das fêmeas enquanto os machos protejem o ovo, a libertação dos filhotes, o retorno das fêmeas, a partida dos machos em busca de alimentos, o reencontro da ´´família``, o amadurecimento dos filhotes, e enfim, a volta ao oceano, culminando mais brevemente aos filhotes o mesmo destino. Que imensa vontade senti em utilizar as palavras mãe, pai e filho neste parágrafo. Pois é exatamente este o intuito inteligente e perturbador do diretor Luc Jacquet e do roteirista Michel Fessler, nós espectadores nos sentimos tocados, ao passo que cria-se a freneticidade e curiosidade a todo minuto da projeção, algo complicadissimo, fato que não aparece uma pessoa sequer durante o filme. Portanto encararmos aqueles animais como humanos acaba por desencadear num sentimento nosso pela assim diga-se odisséia dos pinguins.

A narração em off brilhantemente apresentada e executada explica toda a situação de maneira inimaginável, pelo ponto de vista dos próprios pinguins, tais como estes tendo diálogos e pensamentos refletidos na tela pela voz suave de seus narradores (a oficial francesa), a epopéia se torna tão instigante por ser cruel, linda, e trágica. Minuto a minuto queremos saber o que ocorrerá, não por mera curiosidade da vida animal, mas por interesse e solidariedade pelos ´´personagens`` reais. A grandeza do documentário é notável, já que esse período dura vários meses e possui inúmeras fases e complicações distâncias imensas de locais, portanto é fantástico como conseguiram capturar e demonstrar tudo, realmente tudo que acontece, através de câmeras vivissimas a imagem dos pinguins torna-se deslumbrante, uma verdadeira obra de arte das descobertas. Uma pena também a edição do longa não ter sido ao menos indicada ao Oscar, prêmio que merecia disparadamente ganhar. A introdução de uma sequência cronólogica na vida dessas aves realiza-se num dos trabalhos de montagem mais brilhante que tive a oportunidade de assistir. Nada é perdido, cada minímo detalhe é mostrado com precisão, por mais que este seja cruel ou impensável.

Outro ponto importante fora o implemento de uma trilha sonora poética e suave, a mais humana possível, além de músicas primordialmente tocantes em momentos especificos de ´´drama interior`` onde inexistia uma narração para explicar o ocorrido, e não precisava, pela beleza da imagem percebia-se o significado do momento. ´´Gente``, ´´menino``, ´´mãe``. Foram algumas das palavras que repeti durante a projeção da fita. As capturas do documentário nos fazem pensar, pois mesmo os pinguins-imperadores são obviamente irracionais, mas por que estes possuem atitudes tão humanas? Por que retiramos de muitas de suas atitudes as mesmas que as nossas em família ou sociedade? Coisas da natureza, demonstrada com louvor num verdadeiro épico documentário. Até o mais aversivo aos animais vai se deleitear e emocionar-se com o ´´senso humano`` da marcha dos pinguins-imperadores.

Cotação: 9.0

**Caso assista, vai com certeza querer saber mais sobre a maior ave da família Spheniscidae (pinguins), então acesse aqui.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Edukators

Começando o ano com o terrível medo de cometer algum erro gráfico, devido a mudança na ortografia portuguesa, mas tudo bem, pouco importa. Gostaria também de salientar a respeito da premiação mais importante do mundo cinéfilo, o Blog dos Cinéfilos Awards 2009 (BDC Awards) rsrs, perdoem-me a brincadeira, mas esta premiação organizada pelo editor do blog terá anunciada seus indicados nesta quarta-feira, dia 7. Nos vemos lá! Depois do comunicado vamos ao filme.


Título original: Die Fetten Jahre Sind Vorbei
Ano de lançamento (Alemanha): 2004
Direção: Hans Weingartner

O longa alemão ´´Edukators`` não se apresenta como um filme revolucionário e impactante, que faz de sua temática o centro das atenções, desviando-se para um estudo de suas características submetendo seus personagens apenas às discussões políticas das quais se encontram, o que na verdade são os principais requisitos de filmes do gênero. ´´Edukators`` consegue ir mais longe e sobressair-se dos demais, por apresentar uma trama que tem seus personagens em primeiro lugar, as consequências de suas concepções e pensamentos em segundo, abrindo espaço para os dialgólos discursivos sem que estes soem pragmáticos, chatos ou até repetitivos. Torna-se ainda mais interessante quando as mesmas pessoas que estão discutindo aqueles problemas tão globais e estagnados são pessoas simples, que hoje em dia nada podem fazer para mudar a situação e elas mesmos inconformadas parecem saber disso.

Jan (Daniel Burh) e Peter (Stipe Ecerg) são dois jovens idealistas que encontraram uma maneira diferente de expressarem seus conceitos. Eles invadem mansões quando os donos viajam e ao invés de roubarem objetos bagunçam completamente a casa, mudando imóveis e objetos de lugar, deixando uma mensagem para o dono da casa: ´´Vocês têm dinheiro demais... Ass: Os Educadores``. Um dia Peter viaja para Barcelona e pede para Jan ir ajudar sua namorada Jule (Julia Jentsch) na pintura do apartamento do qual ela estava sendo despejada. Jan e Jule acabam ficando intímos e se envolvendo casualmente, e ao Jan contá-la sobre o que ele e Peter faziam eis que a moça sugere um plano. Ir com ele até a mansão de um homem, que Jule acidentalmente havia batido o carro e fora obrigada a pagar inúmeras prestações até hoje, fazendo-a ficar seriamente necessitada e com pouco dinheiro. Os dois topam e fazem o ´´serviço`` na casa do idoso rico.

Após Peter voltar de viagem, Jule liga para Jan e diz desesperada ter esquecido o celular na mansão e que eles deveriam voltar. Mas nesta segunda inesperada visita, logo após acharem o celular, Hardenberg (Burgat Klaubener), o dono da casa, volta de viagem e encontra os dois inquilinos. Sem saberem o que fazer eles deixam Hardenberger inconsciente e pedem ajuda de Peter. Os três jovens decidem então sequestrá-lo e levá-lo a uma cabana distante na floresta, que Jule conhecia. Hardenberger passa então a conversar com os idealistas e discutir sobre os atuais assuntos que envolvem capitalismo, desigualdade, tirania dos ricos, raízes político-históricas e etc, à medida que vai ganhando confiança e afeto dos sequestradores e um triângulo amoroso vai se formando.

Como eu disse o principal mérito do longa está nos seus dialógos, portanto no seu roteiro. Os debates dos assuntos oferecidos pela temática, embora os mesmos que nos acostumamos a ver, não soam repetitivos muito menos clichês, são intrigantes e interessantes, talvez por apresentarem os pontos de vistas de ambos os lados, do burguês rico e do jovem idealista, num confronto de palavras sem fim. Como a maior parte do filme se concentra nesses quatro personagens todos os protagonistas dão um show, oferecendo veracidade aos seus conceitos e ideologias e expressões aos seus sentimentos pessoais e peculiares, em destaque para Burh e Burgat, que conduz a aparente transformação do personagem de maneira brilhante. Hans Weingartner faz uma direção segura e que não procura se sobrepor aos seus atores, inovando bem em alguns aspectos, como a fotografia em certas sequências sendo feitas por celulares, passando a certa impressão de que eles eram apenas jovens e queriam filmar e gaurdar aquele momento para si.

Cotação: 9.0

domingo, 9 de novembro de 2008

Gomorra


Título original: Gomorra
Ano de lançamento (Itália): 2008
Direção: Matteo Garrone

Comparações foram feitas a clássicos memoráveis tais como ´´O Poderoso Chefão`` e ´´Os Bons Companheiros```, mas se na minha opinião ´´Gomorra`` não é párea para estas obra-primas, forças da natureza, ao menos o filme italiano consegue figurar entre os melhores filmes de máfia já feitos. E olhem que é grande o acervo de fenômenos que neste grupo seleto estão e olhem também que este é um dos meus gêneros favoritos. Este longa é um filme de máfia, mas que se sobressai dos demais feitos nos dias atuais por um certo aspecto, possui uma trama diferente e uma narrativa totalmente complexa e abrangente. Baseado no livro de mesmo nome, do autor Roberto Saviano (hoje ameaçado de morte pela máfia) o longa de Matteo Garrone procura revelar todas as camadas e faces da máfia italiana de Nápoles, esta chamada de Camorra.

Ao referir-me a todas as camadas e faces exalto a importância da narrativa deste filme. A máfia não é mostrada apenas pela história de um jovem que decide entrar no mundo do crime ou de um grande chefão que se encontra no meio de uma guerra entre famílias. Ao tentar retratar e revelar assim como o livro todas as verdadeiras facetas da máfia, o roteiro procura enfocar vários personagens principais e secundários, assim podendo estudá-la desde seu poderoso chefão até o pequeno garoto que passa a fazer pequenos serviços para o grupo. O mais interessante é que não são histórias destinadas a se cruzar, não são relações diretas entre os personagens, mas sim indiretas. O simples fato de todos contribuirem em algo para a máfia faz com que seus destinos se choquem, mesmo uns não conhecendo aos outros nem nunca os terem visto.

Uma grande obra-prima de Fellini, intitulada ´´Amacord`` procurou através de diversos personagens e tramas distintas demonstrar a sociedade italiana da época, com um humor poético impressionante e fundamental. ´´´Gomorra`` procura com seus diversos personagens e tramas distintas enfocar e analisar e máfia de Nápoles, com um tom mais violento, cruel e triste. E se o destino de seus personagens é chocante, não podia-se esperar algo diferente devido ao que fora refletido pela trama. Para manter essa narrativa rápida, repleta e seca, Garrone se utiliza de um estilo de filmagem quase que documental (similar à ´´Z``, de Costa Gravas), e também não deixa os minímos detalhes presentes no roteiro escaparem ou serem esquecidos pelo espectador. Uma direção bastante segura e inspirada, que soube retirar a tamanha naturalidade precisa dos seus atores (a maioria oriunda do teatro) além de passar um tom sombrio no longa.

Aliás esse tom é refletido na sua fotografia, escura e ao mesmo tempo fria e seca. A montagem do filme assim como a fotografia é primorosa, nunca em momento algum tornando-se confusa mesmo diante de vários personagens e histórias diferentes, além que consegue manter o aspecto documental do longa demonstrado pelo diretor. São histórias diferentes, mas na verdade idem iguais, fazem parte do mesmo ninho e com isso o diretor não explorou uma trama mais do que a outra. Todas foram igualmente retratadas e estudadas. Violento, cru e realista ´´Gomorra`` além de diferente é um dos melhores da atualidade em filmes de máfia. O Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por hoje é da Itália. Ninguém sabe o que virá a acontecer, talvez por essa mudança na categoria se torne realmente mais difícil uma mancada do filme não ser indicado ou até ganhar. Pois sem dúvidas e sem medo de confessar, digo que é muito difícil surgir um longa superior na disputa desta categoria.

Cotação: 9.5

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A Vida dos Outros


Título original: Das Leben der Anderen
Ano de lançamento (Alemanha): 2006
Direção: Florian Henckel Von Donnersmarck

Na premiação do Oscar 2007 criei antipatia por este filme. Por quê ? - Pelo simples fato de desbancar a obra-prima mexicana ´´O Labirinto do Fauno``. Não poderia nunca imaginar este ocorrido, embora a previsão de alguns poucos analistas. Mas dando tempo ao tempo o que era antipatia acabou virando ansiosismo, na espera de poder logo conferir o longa, que recebia ótimas críticas, algumas até exaltando-o por ser melhor que o próprio filme de Guilhermo Del Toro. Assisti com ótimas expectativas e adorei. Superior a ´´Fauno`` jamais será, mas não vale a pena argumentar sobre a premiação. A análise do filme tem que de feita separadamente da justiça ou injustiça de que este fora submetido numa determinada premiação de cinema. Apenas uma rapidinha; o longa mereceu o Oscar, tem muita qualidade, mas não quando disputava com ´´O Labirinto do Fauno``, assim como ´´Onde Os Fracos Não Têm Vez`` também merecia sua estatueta dourada, embora constasse na disputa um longa claramente superior como ´´Sangue Negro``, e como aconteceu e continuará assim por várias e várias vezes.

Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) é um espião do serviço secreto contratado pelo governo da ex-Alemanha Oriental para investigar a vida do famoso e maior dramaturgo do país Georg Dreyman (Sebastian Koch), apesar de não haver nada de concreto contra ele, que era casado com a bela atriz atriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck). Gerd coloca várias escutas no apartamento do casal e aluga um outro justamente à frente. Vigiados 24 horas por dia Gerd passa a conhecer o intímo e peculiar dos dois adultos, à medida que na tentativa de descobrir algo que possa incriminá-los, percebe a essência da vida amorosa e familiar diante dos conflitos do casal, sucumbindo numa incomum emoção afetiva gerada pelo espião e que transborda-se na curiosidade para em saber o que aconteceria com eles. Fato esse deve-se à vida solitária que Gerd levava (ilustrada brilhantemente no roteiro com a cena da prostituta) e diante daquela situação, reflete que seus únicos amigos intímos realmente eram Georg Dreyman e Christa-Maria.

O ponto forte do filme é esse, essa ironia apresentada no contexto da trama. Gerd contratado para fazer um serviço, acaba fazendo outro em virtude de uma amizade nunca alcançada e desde então desejada. Com um roteiro fantástico envolvendo política, vida familiar, violência e humor, o diretor Florian Henckel Von Donnersmarck comsegue com proeza passar toda a história de maneira densa, mas que nunca soe pesada para o espectador, e sim emocionante, tocante. A fotografia e montagem do filme são primorosas, dando a certa densidade e freneticidade momentaneamente usadas. E o que dizer das atuações, simplesmente espetaculares do início ao fim entre os protagonistas, desde do casal extremamente bem trabalhado demonstrando uma afinidade incrível até o carisma e também crueldade irônica de Anton Grubitz (Ulrich Tukur), como o porta-voz do ministro.

Mas não tenham dúvidas, o filme é de
Ulrich Mühe (infelizmente vítima de uma precoce morte pouco após o encerramento do longa). Sua atuação é simplesmente espetacular e sensacional. Sua capacidade em refletir do personagem a frieza, a solidão pessoal em que se encontrava, e a mundança repentina em busca de afeto, é altamente brilhante como a construção e o desfecho deste personagem no roteiro. Uma das atuações mais consistentes e dramáticas do ano de 2006. Enfim, ressalva algumas cenas complicadas com um tema político entre os próprios, a película é maravilhosa, transformando minha antiga e já sepultada antipatia em euforia.

Cotação: 9.0

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A Desconhecida


Título original: La Sconosciuta
Ano de lançamento (Itália/ França): 2006
Direção: Giuseppe Tornatore

Depois de uma leve ausência, estou de volta. É a velha praga de computadores que fizeram contra minha pessoa rsrs.

Sou imenso fã do diretor italiano Giuseppe Tornatore. Considero sua obra-prima ´´Cinema Paradiso`` como um dos meus favoritos. Sua grande capacidade em transbordar para as telas a beleza humana da vida e os pequenos valores sentimentais, abordados por um intenso drama familiar, são integrantes de suas características como vê-se em além de ´´Cinema Paradiso``, nos ótimos ´´Estamos Todos Bem`` e ´´Malena``. Todos filmes muito humanos e sensíveis que encantam o espectador. Há muito tempo anseio por assistir ´´A Desconhecida``, não digo que fiquei decepcionado durante as quase duas horas de projeção. Mas esperava mais de um Tornatore. E se o longa não adequa-se a um drama sentimental, muito menos funciona como suspense, mas chega a prender e despertar a curiosidade do consumidor acerca de uma história triste e chocante, que precisava ser contada.

Irena (Kseniya Rappoport) é uma ucraniana que se estabeleceu numa cidade italiana e começa a trabalhar num prédio vizinho ao seu, onde logo se torna babá e empregada de um casal e sua filha. Com rápidos e frenéticos flashbacks o passado de Irena começa a desenrola-se à medida que busca uma ligação com suas atitudes do presente, já que ela passa misteriosamente a investigar a vida desta família, onde tudo leva a crer, possui uma ligação com seu passado sombrio. Irena fazia parte de uma rede de prostituição onde era cruelmente destratada e humilhada pelo chefe. Numa intensa busca mistérios vão sendo revelados enquanto seguem-se os dias e aumenta a confiança da família na nova empregada.

É um filme muito frenético e complicado de ser feito. O roteiro possui muitas dúvidas e mistérios, dos quais quase todos são apresentados apenas nos minutos finais, sofrendo de pouco tempo para muita informação. Além disso, mesmo que com uma perseverante trajetória unida a uma intensa trilha sonora, o filme não consegue empolgar e passar o suspense almejado e necessário para a trama, o lado dramático instiga muito mais quem o assiste, concluindo-se que seria extremamente perfeito para este longa uma boa conciliação entre os dois termos.

Tornatore aborda uma narrativa não-linear e claramente preocupada na tentativa de chocar tanto no clima misterioso como nas – bem sucedidas – chocantes cenas que retratam o submundo degradante da prostituição. Mas ele acerta principalmente quando em conjunto com o roteiro e atores, deixa-nos a dúvida quase até o fim do que Irena realmente queria e qual era sua ligação com a família; vingança, acerto de contas, verdades e mentiras, enfim, contando com um final admita-se surpreendente na questão dramática, embora displicente com relação ao tom passado no resto da película. Não é um grande filme, eu esperava mais. Algo de grandioso são as ótimas atuações, principalmente da protagonista Kseniya Rappoport.

Cotação: 7.0

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Amacord


Título original: Amacord
Ano de lançamento (Itália): 1973
Direção: Frederico Fellini

Frederico Fellini foi sem dúvidas um dos maiores diretores da história do cinema. Detentor de obra-primas fenomenais e valiosas ao lonngo de sua carreira, sempre procurou unir em todos os seus filmes os conhecimentos e aprendizados que ia adquirindo. Nas suas obras sempre se vêem os mesmos aspectos, tomados de maneira diferente ou semelhante na temática do filme. O que mais se destaca nos seus trabalhos é claro o humor poético e a divergência entre a realidade e o fantasioso, onde fora apelidado por alguns de lirismo felliniano. Essa poeticidade está presente logicamente em Amacord, um dos melhores senão o melhor, que retratam bem o mundo e o que se passa dentro da cabeça deste mestre Frederico Fellini.

Muitos o consideram como a melhor realização de Fellini, o melhor filme italiano, o melhor filme europeu, o melhor filme estrangeiro e ora o melhor filme de todos. Todas essas afirmações são aceitáveis pelo ponto de vista crítico e embora eu não ache o melhor de todos, considero um dos e dou razão a quem o faz. Como em vários filmes do diretor a trama é repleta de personagens e histórias, com peculiariedades e semelhanças entre todos. Se pedirem a sinopse do filme ela seria a seguinte: Frederico Fellini analisa a vida familiar e religiosa, a educação e a política da Itália nos anos 30, dominada pelo Fascismo. E impressionantemente detalhista, ele nos mostra a base da sociedade italiana daquela época.

Tudo isso acontece através dos olhos de Titta (Bruno Zanin), um garoto irresponsável e inconsequente que adora aprontar com seus colegas de classe. Entram na história os pais de Titta, constantemente brigando entre a família, Gradisca ( a mulher madura pelo qual Titta era apaixonado além de quase toda a cidade), Volpina (uma ninfomaníaca), a peituda dona da tabacaria, além de um mendigo e um socialight que apresentam e analisam os fatos ocorridos na cidade, explicando e demonstrando como era, isso olhando para a câmera. Ou seja, com esses dois personagens falando e se comunicando diretamente com a câmera eles estavam se comunicando diretamente com nós mesmos, portanto faríamos e nos sentiríamos integrantes daquele povo.

Muitos dizem que este filme é um retrato altamente biográfico da vida de Fellini. Ele por diversas vezes negou, mas afirmou que contém passagens semelhantes ao que ele viveu, e com certeza contém, como contém. Tanto que a palavra ´´Amacord`` significa na região onde Fellini nasceu ´´mi recordo`` em italiano. Daí se vê e entende-se além dos vários personagens do filme aqueles dois que constantemente olham e falam para a câmera. Eles representavam o próprio Fellini e suas várias facetas, falando e dialogando conosco. Talvez ele tenha negado ser um filme auto-biográfico pelo fato dos garotos do filme serem tão pevertidos e assim seria Fellini, mas na infância e adolescência todos nós somos. Como também os adultos são do mesmo jeito retratado no filme, e os idosos. Impossível não se identificar e relacionar seus sentimentos com os personagens.

Um filme que não possui uma história central, um acontecimento que desencadeia numa consequência. Possui várias histórias e acontecimentos que desencadeiam em várias consequências. E assim é a sociedade, agora que escrevo acontecem inúmeros peculiares e semelhanças sociais. Singelo, engraçado, tocante e poético, uma obra-prima imperdível para quem se diz amante da sétima arte.

P.S. Procurei colocar um pôster do filme dessa vez, para retratar os vários personagens da película.

Cotação: 10

terça-feira, 20 de maio de 2008

Ladrões de Bicicletas


Título original: Ladri di Biciclette
Ano de lançamento (Itália): 1948
Direção: Vittorio De Sica

Há quem diga que este seja o melhor filme que representa o neo-realismo italiano e realmente, depois de assistir, é difícil discordar. Os elementos da realidade são transportadas para a obra possuindo uma enorme veracidade e que, em algumas cenas, se aproximam de um documentário. Esse movimento servia para mostrar a realidade social e econômica do país na época e é exatamente isso, com uma perfeição incrível, que ´´Ladrões de Bicicletas`` passa da Itália pós-guerra para a tela.

Em Roma Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani), um desempregado casado e pai de dois filhos, recebe a oferta de um emprego como colador de cartazes. Para assumir o cargo ele teria de fazer uso de uma bicicleta durante seu turno, assim Ricci com ajuda da mulher consegue recuperar sua antiga bicicleta que havia penhorado. Feliz e bastante esperançoso quanto ao futuro seu e de sua família ele parte para o seu primeiro dia de trabalho, quando uma fatalidade acontece. Logo em seu primeiro dia, ela é roubada e Ricci não consegue alcançar o ladrão.

Desolado ele volta para casa, primeiro pegando seu filho mais velho (o outro é recém-nascido) através de um ônibus lotado em que ele precisa furar fila para não deixar o pequeno garoto esperando mais do que já estava. Desde já, vemos a incomunicabilidade que ele (o pai) tem para com seu filho , acentuando uma falta de demonstração de carinho e afeto. Mas não pensem que o que falta é carinho e afeto pelo menino, pelo contrário, ele adora o garoto e apenas não sabe demonstrar isso, o que faz o menino se sentir incomodado.

Decidido a recuperar sua bicileta no dia seguinte (domingo), antes que chegue segunda e ele perca prematuramente seu novo emprego, ele parte com seu filho Bruno (Enzo Staiola), com quem ele mal se comunicava já dito anteriormente, numa busca incansável, intrigante e emocionante pelo homem que havia lhe roubado ´´o futuro``. Era assim que Ricci considerava aquela bicicleta, com ela e o emprego ele e seus filhos não passariam mais fome e teriam uma vida ao menos confortável e suportável. O mais tocante do filme é além da busca de felicidade de Ricci com seu filho Bruno, a própria tentativa de aproximação entre ambos que Vittorio De Sica passa de maneira densa, difícil, a partir de diferentes comportamentos e atitudes do pai do garoto. Enquanto ele indignado com o que lhe está acontecendo anda pelas ruas sem olhar para o menino, que quase é atropelado sem o próprio pai perceber, ele leva seu filho a um restaurante fino (mesmo com miúdos no bolso) para tentar alegrá-lo em outro momento, e a preocupação dele com o filho é angustiante com close-ups no rosto preocupado de Ricci, amedontrado de ter acontecido um acidente com o garoto, em outra cena do filme.

Com takes fantásticos da cidade de Roma, ainda que com poucos recursos, Vittorio De Sica tenta mostrar a cidade Roma como um todo, todas suas camadas sociais e econômicas, onde Ricci e sua família eram apenas mais um dos vários casos de pobreza e superação. E de fato, a história por qual o personagem passa na busca de sua bicicleta é uma história de superação, muito triste e engraçada momentaneamente. Nossa torcida para que dê tudo certo com nossos heróis reais, pobres e frágeis (como seres-humanos que são) é incondicional, o que aliás é outro ponto importante do filme, que mostra como o homem em momentos de fragilidade pode agir aleatoriamente, sem pensar nas possíveis consequências.

E a cena que remete tudo do filme, junta todos os aspectos, é a cena em que Bruno vai até seu pai chorando e segura sua mão; aquilo tudo proporcionou uma reaproximação, ainda que tímida, entre pai e filho, seja o final triste ou feliz, o que num filme como esse acaba a graça se revelado para quem ainda não assistiu. Sem dúvidas, uma obra-prima e um dos melhores filmes da história.

Cotação: 10