quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Embriagado de Amor


Título original: Punch-Drunk Love
Ano de lançameto (E.U.A): 2002
Direção: Paul Thomas Anderson

Considerado por muitos um dos melhores diretores da atualidade e de sua geração (por merecimento) o cultuado e já célebre Paul Thomas Anderson possui no seu curto currículo de longas invejáveis películas, todas acima da média e queira ou não capazes de serem denominadas obra-primas, vide ´´Boogie Nights`` , ´´Magnólia`` e claro um filme fenomenal que se tornará um clássico do cinema, ´´Sangue Negro`` (ainda não assisti ´´Jogada de Risco``). Outro que não podemos desfalcar desta sua gloriosa lista é um filme simplesmente encantador e interessante e que, não fosse pelo roteiro e direção absolutamente perfeitas de P.T.A talvez não seria tão lembrado como foi, ainda que pouco. Só de pensar que este homem conseguiu retirar de Adam Sandler uma atuação ao menos soberba, da qual nem ele mesmo acreditava ser capaz.

Barry Egan (Adam Sandler) é um pequeno empresário que além de passar por certas dificuldades financeiras, possui um certo descontrole emocional resultado de traumas tidos da sua infância. Seu mundo seria completamente solitário não fosse suas sete irmãs que tentam integrá-lo à família, sabendo do seu problema. Com idéias altamente mirabolantes e sem nexo algum e ataques de raiva e ansiedade constantes ele tenta prosseguir com a vida até que conhece Lena Leonard (Emily Watson), amiga de sua irmã e por quem ele repentinamente se apaixona. Frustrado com a vida e a solidão, à noite ele liga para um sex-fone a fim apenas de conversar. Na mãnha seguinte a garota do telefone liga de volta pedindo dinheiro a Barry e ao recusar ela passa a fazer ameaças, incluindo uma grande rede ilegal que tornam a perseguir e ameaçar o rapaz.

Com todos esses problemas ele decide lutar até o fim pelo amor de Lena e enfrentar aos mafiosos, às complicações cotidinas e principalmente a si mesmo, ao seu excêntrico e conturbardo mundo. Como demonstrado o longa provém de um roteiro impressionante, cheio de reviravoltas e diferentes temáticas ao longo do filme. Roteiro assinado por ele mesmo; Paul Thomas Anderson, que diante de um roteiro incrível parte para uma direção impecável e rica principalmente nos pequenos detalhes, assim como em ´´Sangue Negro``. Para uma direção perfeita P.T.A une-se à fotografia, montagem e principalmente trilha sonora do filme. Repare por exemplo no início do longa os takes de Barry no meio da rua completamente vazia, ajudando a formar a solidão do personagem.

A trilha foi claramente supervisionada pelo diretor. Para tentar passar o mundo de Barry são músicas irritantes e no maior volume que quase não conseguimos escutar sua voz. Mistura de tambor com flauta, piano, saxofone, retrata seu mundo prestes a explodir como visto na cena em que ele tenta vender uma lâmpada à medida que suas sete irmãs ligam para seu trabalho. Temos também a cena em que ele está nervoso ao telefone (e nós também por causa da trilha e do movimento da câmera acompanhando Barry) e quando finalmente tem um ataque de raiva a música para; ele explodiu. E não é só com a trilha sonora que o diretor demonstra isso, na casa das irmãs o barulho irritante de suas sete irmãs conversando é o suficiente para notar-se sua impaciência até ter seu ataque de raiva. Outra sequência de detalhes incríveis no longa; quando Barry decide viajar ao Havaí e encontrar sua amada, começa na trilha uma fabulosa música (´´He needs me``, de Shelly Duvall), que só pára quando ele a encontra, como se fosse uma saga. E note também a cena em que ele está num telefone público e ao finalmente conseguir falar com Lena a luz do farol de uma moto ilumina Barry e o telefone.

Enfim, como visto em ´´Sangue Negro`` o diretor transborda para as telas um detalhismo e perfeccionismo intransigentes no longa. Adam Sandler está surpreendentemente excelente, sem muito de suas caretas e sotaques chatos, ele definitivamente incorpora o personagem e ofusca a ótima Emily Blunt, além de uma pequena, mas marcante participação do fantástico Philip Seymour Hoffman. ´´Embriagado de Amor`` é uma grande surpresa, devido ao talento de realmente um dos melhores da atualidade; Paul Thomas Anderson.

Cotação: 9.0

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

A Vida dos Outros


Título original: Das Leben der Anderen
Ano de lançamento (Alemanha): 2006
Direção: Florian Henckel Von Donnersmarck

Na premiação do Oscar 2007 criei antipatia por este filme. Por quê ? - Pelo simples fato de desbancar a obra-prima mexicana ´´O Labirinto do Fauno``. Não poderia nunca imaginar este ocorrido, embora a previsão de alguns poucos analistas. Mas dando tempo ao tempo o que era antipatia acabou virando ansiosismo, na espera de poder logo conferir o longa, que recebia ótimas críticas, algumas até exaltando-o por ser melhor que o próprio filme de Guilhermo Del Toro. Assisti com ótimas expectativas e adorei. Superior a ´´Fauno`` jamais será, mas não vale a pena argumentar sobre a premiação. A análise do filme tem que de feita separadamente da justiça ou injustiça de que este fora submetido numa determinada premiação de cinema. Apenas uma rapidinha; o longa mereceu o Oscar, tem muita qualidade, mas não quando disputava com ´´O Labirinto do Fauno``, assim como ´´Onde Os Fracos Não Têm Vez`` também merecia sua estatueta dourada, embora constasse na disputa um longa claramente superior como ´´Sangue Negro``, e como aconteceu e continuará assim por várias e várias vezes.

Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) é um espião do serviço secreto contratado pelo governo da ex-Alemanha Oriental para investigar a vida do famoso e maior dramaturgo do país Georg Dreyman (Sebastian Koch), apesar de não haver nada de concreto contra ele, que era casado com a bela atriz atriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck). Gerd coloca várias escutas no apartamento do casal e aluga um outro justamente à frente. Vigiados 24 horas por dia Gerd passa a conhecer o intímo e peculiar dos dois adultos, à medida que na tentativa de descobrir algo que possa incriminá-los, percebe a essência da vida amorosa e familiar diante dos conflitos do casal, sucumbindo numa incomum emoção afetiva gerada pelo espião e que transborda-se na curiosidade para em saber o que aconteceria com eles. Fato esse deve-se à vida solitária que Gerd levava (ilustrada brilhantemente no roteiro com a cena da prostituta) e diante daquela situação, reflete que seus únicos amigos intímos realmente eram Georg Dreyman e Christa-Maria.

O ponto forte do filme é esse, essa ironia apresentada no contexto da trama. Gerd contratado para fazer um serviço, acaba fazendo outro em virtude de uma amizade nunca alcançada e desde então desejada. Com um roteiro fantástico envolvendo política, vida familiar, violência e humor, o diretor Florian Henckel Von Donnersmarck comsegue com proeza passar toda a história de maneira densa, mas que nunca soe pesada para o espectador, e sim emocionante, tocante. A fotografia e montagem do filme são primorosas, dando a certa densidade e freneticidade momentaneamente usadas. E o que dizer das atuações, simplesmente espetaculares do início ao fim entre os protagonistas, desde do casal extremamente bem trabalhado demonstrando uma afinidade incrível até o carisma e também crueldade irônica de Anton Grubitz (Ulrich Tukur), como o porta-voz do ministro.

Mas não tenham dúvidas, o filme é de
Ulrich Mühe (infelizmente vítima de uma precoce morte pouco após o encerramento do longa). Sua atuação é simplesmente espetacular e sensacional. Sua capacidade em refletir do personagem a frieza, a solidão pessoal em que se encontrava, e a mundança repentina em busca de afeto, é altamente brilhante como a construção e o desfecho deste personagem no roteiro. Uma das atuações mais consistentes e dramáticas do ano de 2006. Enfim, ressalva algumas cenas complicadas com um tema político entre os próprios, a película é maravilhosa, transformando minha antiga e já sepultada antipatia em euforia.

Cotação: 9.0

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A Desconhecida


Título original: La Sconosciuta
Ano de lançamento (Itália/ França): 2006
Direção: Giuseppe Tornatore

Depois de uma leve ausência, estou de volta. É a velha praga de computadores que fizeram contra minha pessoa rsrs.

Sou imenso fã do diretor italiano Giuseppe Tornatore. Considero sua obra-prima ´´Cinema Paradiso`` como um dos meus favoritos. Sua grande capacidade em transbordar para as telas a beleza humana da vida e os pequenos valores sentimentais, abordados por um intenso drama familiar, são integrantes de suas características como vê-se em além de ´´Cinema Paradiso``, nos ótimos ´´Estamos Todos Bem`` e ´´Malena``. Todos filmes muito humanos e sensíveis que encantam o espectador. Há muito tempo anseio por assistir ´´A Desconhecida``, não digo que fiquei decepcionado durante as quase duas horas de projeção. Mas esperava mais de um Tornatore. E se o longa não adequa-se a um drama sentimental, muito menos funciona como suspense, mas chega a prender e despertar a curiosidade do consumidor acerca de uma história triste e chocante, que precisava ser contada.

Irena (Kseniya Rappoport) é uma ucraniana que se estabeleceu numa cidade italiana e começa a trabalhar num prédio vizinho ao seu, onde logo se torna babá e empregada de um casal e sua filha. Com rápidos e frenéticos flashbacks o passado de Irena começa a desenrola-se à medida que busca uma ligação com suas atitudes do presente, já que ela passa misteriosamente a investigar a vida desta família, onde tudo leva a crer, possui uma ligação com seu passado sombrio. Irena fazia parte de uma rede de prostituição onde era cruelmente destratada e humilhada pelo chefe. Numa intensa busca mistérios vão sendo revelados enquanto seguem-se os dias e aumenta a confiança da família na nova empregada.

É um filme muito frenético e complicado de ser feito. O roteiro possui muitas dúvidas e mistérios, dos quais quase todos são apresentados apenas nos minutos finais, sofrendo de pouco tempo para muita informação. Além disso, mesmo que com uma perseverante trajetória unida a uma intensa trilha sonora, o filme não consegue empolgar e passar o suspense almejado e necessário para a trama, o lado dramático instiga muito mais quem o assiste, concluindo-se que seria extremamente perfeito para este longa uma boa conciliação entre os dois termos.

Tornatore aborda uma narrativa não-linear e claramente preocupada na tentativa de chocar tanto no clima misterioso como nas – bem sucedidas – chocantes cenas que retratam o submundo degradante da prostituição. Mas ele acerta principalmente quando em conjunto com o roteiro e atores, deixa-nos a dúvida quase até o fim do que Irena realmente queria e qual era sua ligação com a família; vingança, acerto de contas, verdades e mentiras, enfim, contando com um final admita-se surpreendente na questão dramática, embora displicente com relação ao tom passado no resto da película. Não é um grande filme, eu esperava mais. Algo de grandioso são as ótimas atuações, principalmente da protagonista Kseniya Rappoport.

Cotação: 7.0

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Análise dos filmes assistidos em julho

Farei agora uma breve análise dos filmes assistidos (pela primeira vez) por este blogueiro no mês de julho. Por fim fora um mês positivo, onde tive a oportunidade de assistir grandes clássicos, assim como saí por repetidas vezes satisfeitíssimo das salas de cinema após conferir alguns dos lançamentos em cartaz.

Cotação: * * * * *


1. Os Incompreendidos (François Truffaut, 1959): Certamente o melhor filme que assisti neste mês de julho. Conhecia pouco de Truffaut (havia assistido dele apenas Farenheit 451), mas depois desta obra-prima jovial passei a assistir mais de seus trabalhos. No longa Antoine Doniel é um garoto frustrado, negligenciado e destratado pelos seus pais, e que após ser humilhado pelo professor que o detestava foge de casa e passa a fazer pequenos furtos junto a um amigo, onde consequentemente acaba indo parar num reformátorio juvenil. Antoine Doniel é na verdade o alter-ego de Trauffaut na sua infância, podemos então conhecer a vida deste garoto triste e infonformado com a situação que vivia através de uma odisséia irônica, trágica, mas natural. Uma verdadeira obra-prima e um dos melhores do fantástico cinema francês e deste célebre diretor o qual venho admirando desde então.

2. Serpico (Sidney Lumet, 1973): Com um post anterior sobre o filme disse tudo ou talvez não o que achará da obra. Pacino numa das suas melhores atuações, conduzido por um Lumet consciente e detalhista, dando ao filme uma intensiva precisão do objetivo real, mas praticamente impossível do verídico policial Frank Serpico.



3. Batman - O Cavaleiro das Trevas (Cristopher Nolan, 2008): Um dos maiores públicos dos últimos tempos e o filme mais aclamado do momento. ´´The Dark Knight`` é a confirmação de um novo, mais maduro e realista Batman, do qual Nolan consegue passar tudo que um filme de herói precisa e muito mais. Ledger faz muita gente lembrar como postei anteriormente da morte precoce de James Dean, na mesma proporção trágica da sua, devido a sua impecável e exaustiva atuação como o Coringa. Hoje considero o melhor filme do homem-morcego, à frente inclusive de seu antecessor; o ótimo Batman Begins.

4. Vidas Amargas (Elia Kazan, 1955)

5. A Época da Inocência (Martin Scorsese, 1993)

6. Wall-E (Andrew Stanton, 2008)



7. Speed Racer (Andy e Larry Wachowski, 2008)


Cotação: * * * *


8. Lars And The Real Girl (Craig Gilespie, 2007): Com um dos roteiros mais versáteis e elaborados do ano, o filme consegue encantar não apenas pela situação de seus personagens, mas pela naturalidade com que ela é encarada e aceita, já que no longa um jovem solitário com problemas de desilusão compra uma boneca inflável na internet e a imagina como sendo uma pessoa real, tratada por ele como sua namorada. Aconselhados por uma psicóloga, o irmão e a cunhada do rapaz ao lado de todos da cidade fingem acreditar na história de Lars e passam a trata-lá assim como tal o faz; como uma pessoa real. O roteiro, junto com a direção e as atuações são tão convincentes que às vezes nós mesmos chegamos a acreditar. Ryan Gosling prova seu enorme talento com mais uma exemplar atuação.



9. Porky`s (Bob Clark, 1981): Certo sábado passou este filme de madrugada na Globo e depois de tanto tempo (nem sei realmente se havia assistido) pude novamente conferir esta comédia teen que se tornou um clássico entre os jovens. A genuína comédia adolescente, tomando como base uma história extremamente simples e que unida às ´´clássicas`` confusões aprontadas pelos garotos, acaba por encantar e divertir a todos.

10. A Testemunha (Peter Weir, 1985): Um filme belo tamanha sua qualidade poética. Um pouco monótono, mas que diante de seu roteiro abrangente e a direção calma de Peter Weir, juntando-se a um inspirado Harrison Ford e o garotinho Lucas Hass, torna-se um longa de destaque, além de estudar e exaltar culturas diferentes da nossa.



11. Não Estou Lá (Todd Haynes, 2007)

12. Estômago (Marcos Jorge, 2007)

13. Infância Roubada (Gavin Hood, 2005)

14. Longe Dela (Sarah Polley, 2007)

15. O Orfanato (Juan Antonio Bayona, 2007)

16. Dias de Glória (Rachid Bouchareb, 2006)

17. O Sobrevivente (Werner Herzog, 2006)

18. Cloverfield - Monstro (Matt Reeves. 2008)


Cotação: * * *



19. P.S Eu Te Amo (Richard LaGravanese, 2007): Uma história que poderia ser emocionante, tocante, mas que diante de um péssimo roteiro, péssima direção e péssimas atuações não chega a lugar algum, a não ser irritar pelo desperdicio de um livro que ainda espero ler. Tentativas de arrancar risos com piadas extremamente de mal gosto e sem graça alguma. Não sei porquê estou cotando com três estrelas, talvez pelo livro em que é baseado.

20. Sem Controle (Cris D´Amato, 2007)

21. 1408 (Mikael Hafstrom, 2007)


Cotação: * *

22. Southland Tales (Richard Kelly, 2007)
23. As Loucuras de Dick e Jane (Dean Parisot, 2005)


Cotação: *

24. A Hora da Virada (Steve Carr, 2005)
25. Golpe Baixo (Peter Segal, 2005)

OBS: Na primeira semana eu assisti mais alguns outros poucos filmes, mas por não ter anotado acabei me esquecendo completamente quais foram.
### Lembrei de mais alguns e acrescentei na lista no dia 2 de agosto de 2008.

terça-feira, 29 de julho de 2008

A Época da Inocência


Título original: The Age of Innocence
Ano de lançamento (E.U.A): 1993
Direção: Martin Scorsese

Como muitos aqui sabem, sou fã fervoroso e declarado de Scorsese. Adoro desde seus clássicos memoráveis até filmes menos renomados e consagrados, mas não por isso menos elogiados. Sua filmografia é espetacular, muitos poucos diretores possuem tamanho acervo de obras de grande qualidade no currículo como ele. Tive uma enorme felicidade ao certo dia recentemente, numa videolocadora, avistar ´´A Época da Inocência``, um dos poucos filmes que faltava para que eu possa completar sua exemplar filmografia. Posso dizer que depois de tanto tempo, já sabia que iria simpatizar com o filme, já que nunca deixaria de gostar de nenhum de seus filmes, nos vários a que assisti. Grande conhecedor de Nova York, Scorsese demonstra um estudo diferente da cidade dos seus demais filmes, ora pela época ora pelo enredo apresentado na trama. Mas suas características incomparáveis são claramente presentes nesta obra.

Nova York, 1870. Newland Archer (Daniel Day-Lewis) é um advogado da alta sociedade aristocrática que como quase todos se submete as tendências e costumes de modo inquestionável que a sociedade impunha. Ele irá se casar com May Welland (Winona Ryder), uma bela jovem meiga e inocente admirada pela responsabilidade de compromisso com os costumes e atitudes da época. Mas após conhecer a Condessa Ellen Oneska (Michelle Pfeiffer), uma mulher linda que havia se separado de seu marido e voltado da Europa, ele começa a sentir desejo e um amor incontrolável e involuntário, contra a sua vontade, que ele nunca esperava sentir, por ninguém menos que a prima de sua noiva. Sendo discriminada pela atual sociedade americana pelos seus ideais liberais na época, ela recebe a ajuda de Archer que tenta defendê-la, devido ao seu amor incontrolável e que passa aos poucos a ser correspondido pela Condessa, chocando-se com as tendências e pensamentos atuais, e chocando-se acima de tudo com a índole de si mesmos.

Com esta trama temos a oportunidade de analisar toda a estrutura da sociedade americana da época, algo bastante similar com ´´Amacord`` de Fellini, mas este logicamente mais cômico. E ninguém melhor que Scorsese para fazer isso. Mais uma vez a narrativa de seu filme conduz a obra, dando-nos uma maior percepção do que estava ocorrendo. Outro ponto fundamental para o perfeito entendimento da obra são os célebres plano-sequências do diretor, aqui muito bem elaborados e realizados, servindo acima de tudo para conhecer os vários personagens da história, quando este junta-se à narrativa. Outro do qual sou fã incondicional é Daniel Day-Lewis e aqui ele faz um dos seus melhores trabalhos. Seu personagem sente um desejo que ele mesmo tenta barrar e impedir que se realize, e percebemos isso através das feições que ele transpõe para a tela (destaque para a cena onde ambos declaram-se un para o outro e tentam lutar e lidar com este sentimento ao mesmo tempo). Michelle e Winona também não deixam por menos, são ótimas, mas diante de Lewis são ofuscadas.

Para os impacientes e menos interessados pode soar um pouco chato e monótono (que é em algumas cenas), mas é um filme calmo e tranquilo com uma poeticidade incrível. Essa poeticidade é também atingida pela trilha sonora e fotografia lindissímas (a cena do píer é sublime na unidão destas duas). Ótimos figurino e direção de arte dando uma verídica imagem da época. Para os fãs ou não de Scorsese, recomendo sem dúvidas.

Cotação: 8.5


quarta-feira, 23 de julho de 2008

Juventude Transviada


Títulgo original: Rebel Without a Cause
Ano de lançamento (E.U.A): 1955
Direção: Nicholas Ray

James Byron Dean; James Dean, tornou-se um dos maiores ícones da história do cinema em um período curto de dois anos, fruto de apenas três grandes clássicos da época: ´´Vidas Amargas``, de Elia Kazan, ´´Assim Caminha a Humanidade``, de George Stevens e ´´Juventude Transviada`` de Nicholas Ray, este considerado por muitos o melhor deste brilhante ator, o filme que define exatamente o que fora James Dean para o mundo. Ele foi o representante dos jovens cansados e inconformados com o sistema de regras e mudanças a que eram submetidos, revoltados e oprimidos, verdadeiros incompreendidos. Portanto este filme demonstra o que foi James Dean, e que após sua infeliz, trágica e precoce morte, o transformou quase que em um símbolo. A sensação que tive ao assistir seus três grandes filmes foi a mesma que tive ao assistir o último filme de Heath Ledger ´´Batman - O Cavaleiro das Trevas``, resolvi então homenageiar Dean ao lembrá-lo e por ter visto recentemente ´´Vidas Amargas```.

Jim Stark (James Dean) é um jovem problemático. Fez os pais se mudarem para várias cidades, devido às confusões do rapaz, até fixarem-se em Los Angeles. Lá Jim é preso em plena madrugada por embriaguez de desordem. Na delegacia ele conhece Judy (Natalie Wood) e Platão (Sal Mineo) e é liberado por um policial que compreende a situação de Jim na casa em que vive, recebendo amor superficial dos pais e cansado da maneira sbumissa como sua mãe trata seu pai. No dia seguinte ele vai à escola e tenta se aproximar de sua vizinha, a própria Judy, no caminho. Logo arranja encrenca com Buzz (Corey Allen), namorado de Judy e líder de uma gangue do colégio, que provoca Jim até seu limite e os dois partem para uma briga de faca. O único amigo de Jim é Jhon Crawford, conhecido como Platão (aparentemente obcecado pela amizade de Jim), o qual Jim também havia conhecido na delegacia e que o acompanha até as montanhas da cidade onde fora marcado entre Jim e Buzz um ´´pega`` de carros.

Com o objetivo de adquirir mais respeito e ganhar atenção de Judy ele vai e durante a disputa (cena clássica do cinema) algo acontece, que mudará o rumo e trará trágicas consequências àqueles jovens. Este filme em si é revolucionário, representa até hoje a rebeldia e a liberdade almejada pelos jovens. Jim não era um garoto revoltado por ser pobre ou miserável, sua rebeldia surgia do seu próprio meio, surgia por ser jovem e precisar voltar-se contra algo, como diz o próprio título em inglês: ´´Rebel Without a Cause``; rebelde sem causa. Seu mundo era o suficiente para transformá-lo num rebelde. Por isso James se tornara uma lenda, ele fora o incompreensivo e detentor das inúmeras vozes de inconformistas da época, queria apenas curtir e livrar-se dos problemas que o cercavam.

As atuações na obra são impecáveis. Dean dispensa mais comentários, sua morte toma dimensões tão absurdamente trágicas quando percebemos o ator que estava nascendo dentro dele, como muitos apontam ele seria um novo Brando. Natalie Wood incorpora uma perfeita patricinha da época enquanto que Sal Mineo faz o tipíco excluído e rejeitado, que ao encontrar um amigo transborda-se na loucura insana entre felicidade e delírio. A direção de Nicholas Ray foi extremamente detalhista e forçamente trabalhada, dá ao filme um universo veridicamente jovem e concreto, na medida em que os personagens ganham formas cada vez mais reais e presentes na nossa sociedade. Um filme exemplar e perfeito para estudar o comportamento dos adolescentes, que são na verdade em sua grande maioria, rebeldes sem causa.

Cotação: 9.0

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Estômago


Título original: Estômago
Ano de lançamento (Brasil/Itália): 2007
Direção: Marcos Jorge

João Miguel pode ser considerado como um dos melhores atores nacionais da atualidade, tomando de base seus recentes filmes e analisando que o ator só vem acertando ultimamente, sejam nos projetos muito bem escolhidos ou no talento enorme que verifica-se nos seus trabalhos. Depois de uma pequena ponta em ´´Cidade Baixa`` ele sobrou, e surpreendentemente roubou a cena no sensacional ´´Cinema, Aspirinas e Urubus``, e dentre outros fez ´´O Céu de Suely``, ´´Mutum`` e agora o mais recente ´´Estômago``. Todos ótimos filmes com atuações excelentes que ajudaram a colocá-lo num patamar altíssimo de grande qualidade. Este filme, além de contar com as inspiradas atuações, não só do João, possui um roteiro muito bem escrito e desenvolvido, transportado para o filme de maneira segura pelo iniciante Marcos Jorge.

Raimundo Nonato (João Miguel) é um nordestino que chega a cidade grande com a esperança de uma nova vida. Sem lugar onde ficar ele começa a trabalhar como faxineiro e cozinheiro de um boteco, em troca apenas de moradia e comida. Suas coxinhas ficam famosas e atraem freguesia para o local, como Giovanni (Carlo Briani), dono de um famoso restaurante italiano e que, ciente do talento de Nonato em cozinhar, o contrata. Nonato vai aprendendo e prosperando no novo restaurante e mantém relações com a prostituta Iria (Fabíula Nascimento), na qual ele parece estar apaixonado. Este é na verdade o passado, pois no outro lado da história Nonato está preso pelo que fez no passado (algo que até o final do filme não sabemos o que seria) e divide cela com outros presos, incluindo Bujiú (Babu Santana), o chefão. Quando os outros presos sabem da habilidade culinária de Nonato, ele logo começa a cozinhar para seus companheiros de cela ganhado mais respeito e conhencimento.

A trama do filme se divide entre passado (Nonato livre) e presente (Nonato preso), uma técnica bastante dominada pelos roteiristas e o diretor. Um trabalho em conjunto para que o filme não se torne confuso, grande mérito de ambos. As atuações são todas excelentes, desde do sotaque e timidez nordestina do personagem incorporado por João Miguel, até Fabíula como uma prostituta das ruas (ela engordou bastante para fazer o personagem), Carlo Briani faz um personagem engraçado e sério ao mesmo tempo, e ainda de maior destaque e surpreendente está Babu Santana como o criminoso mandante do presídio. As piadas de humor negro, altamente de bom gosto, servem para amenizar a situação e retirar a naturalidade dos atores, algo muito forte na película.

Segundo longa de ficção do diretor Marcos Jorge, que consegue manter o clima de humor e drama bem equilibrados e correlacionados na trama. Ótima trilha sonora alternando-se na sua intensidade e suavidade de acordo com os diferentes momentos da obra. Após ver o final do filme, fiquei bastante surpreso e chocado, mas parando e refletindo pode-se ver que foi um pouco exagerado e desnecessário, principalmente a última frase falada ou pensada pelo personagem de João Miguel. Queria ser surpreendente ? Com certeza foi, mas forçou um pouco a barra para chegar a este ponto, mas nada que estrague o filme, que ainda assim é ótimo e mais uma vertente de que o cinema nacional está progredindo. Tem muitas merdas feitas pelo nosso cinema ? Demais. Mas temos muitas coisas boas, sem patriotismo e apelação.

Cotação: 8.0