domingo, 9 de novembro de 2008

Gomorra


Título original: Gomorra
Ano de lançamento (Itália): 2008
Direção: Matteo Garrone

Comparações foram feitas a clássicos memoráveis tais como ´´O Poderoso Chefão`` e ´´Os Bons Companheiros```, mas se na minha opinião ´´Gomorra`` não é párea para estas obra-primas, forças da natureza, ao menos o filme italiano consegue figurar entre os melhores filmes de máfia já feitos. E olhem que é grande o acervo de fenômenos que neste grupo seleto estão e olhem também que este é um dos meus gêneros favoritos. Este longa é um filme de máfia, mas que se sobressai dos demais feitos nos dias atuais por um certo aspecto, possui uma trama diferente e uma narrativa totalmente complexa e abrangente. Baseado no livro de mesmo nome, do autor Roberto Saviano (hoje ameaçado de morte pela máfia) o longa de Matteo Garrone procura revelar todas as camadas e faces da máfia italiana de Nápoles, esta chamada de Camorra.

Ao referir-me a todas as camadas e faces exalto a importância da narrativa deste filme. A máfia não é mostrada apenas pela história de um jovem que decide entrar no mundo do crime ou de um grande chefão que se encontra no meio de uma guerra entre famílias. Ao tentar retratar e revelar assim como o livro todas as verdadeiras facetas da máfia, o roteiro procura enfocar vários personagens principais e secundários, assim podendo estudá-la desde seu poderoso chefão até o pequeno garoto que passa a fazer pequenos serviços para o grupo. O mais interessante é que não são histórias destinadas a se cruzar, não são relações diretas entre os personagens, mas sim indiretas. O simples fato de todos contribuirem em algo para a máfia faz com que seus destinos se choquem, mesmo uns não conhecendo aos outros nem nunca os terem visto.

Uma grande obra-prima de Fellini, intitulada ´´Amacord`` procurou através de diversos personagens e tramas distintas demonstrar a sociedade italiana da época, com um humor poético impressionante e fundamental. ´´´Gomorra`` procura com seus diversos personagens e tramas distintas enfocar e analisar e máfia de Nápoles, com um tom mais violento, cruel e triste. E se o destino de seus personagens é chocante, não podia-se esperar algo diferente devido ao que fora refletido pela trama. Para manter essa narrativa rápida, repleta e seca, Garrone se utiliza de um estilo de filmagem quase que documental (similar à ´´Z``, de Costa Gravas), e também não deixa os minímos detalhes presentes no roteiro escaparem ou serem esquecidos pelo espectador. Uma direção bastante segura e inspirada, que soube retirar a tamanha naturalidade precisa dos seus atores (a maioria oriunda do teatro) além de passar um tom sombrio no longa.

Aliás esse tom é refletido na sua fotografia, escura e ao mesmo tempo fria e seca. A montagem do filme assim como a fotografia é primorosa, nunca em momento algum tornando-se confusa mesmo diante de vários personagens e histórias diferentes, além que consegue manter o aspecto documental do longa demonstrado pelo diretor. São histórias diferentes, mas na verdade idem iguais, fazem parte do mesmo ninho e com isso o diretor não explorou uma trama mais do que a outra. Todas foram igualmente retratadas e estudadas. Violento, cru e realista ´´Gomorra`` além de diferente é um dos melhores da atualidade em filmes de máfia. O Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por hoje é da Itália. Ninguém sabe o que virá a acontecer, talvez por essa mudança na categoria se torne realmente mais difícil uma mancada do filme não ser indicado ou até ganhar. Pois sem dúvidas e sem medo de confessar, digo que é muito difícil surgir um longa superior na disputa desta categoria.

Cotação: 9.5

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Top 10 - Great Scenes

Um Meme muito complicado de ser feito, dentre tantas tinha de ser bastante seleto e escolher só10, mas assim é a a brincadeira. Bom, postarei o vídeo com as 10 cenas mais marcantes, mas vale salientar que como nesse blog tem um tópico ´´Great Scenes`` algumas dessas cenas possivelmente serão postadas novamente, e dessa vez comentadas e analisadas. Algumas delas contém SPOILERS.



1. Henry Hill entrando no Copacabana em ´´Os Bons Companheiros``.



2. Alex ´´dando uma lição`` nos seus drugues em ´´Laranja Mecânica``.



3. Atentado contra Don Vito Corleone em ´´O Poderoso Chefão``.



4. Jake La Motta se deixa ser massacrado por Sugar Ray Robbinson e mesmo assim continua de pé em ´´Touro Indomável``.



5. ´´Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro`` em ´´A Lista de Shindler``.



6. Homenagem de Alfredo para Totó em ´´Cinema Paradiso``.



7. ´´Eu poderia ter sido um desafiante, eu poderia ter sido alguém, ao invés de um vagabundo, o que eu sou vamos encarar. Foi você Charlie, foi você``. A redenção final de Terry Maloy em ´´Sindicato de Ladrões``.



8. Antonio, desesperado, decide roubar uma bicicleta em ´´Ladrões de Bicicletas``. (Spoiler)



9. William Munny mostra sua verdadeira faceta de assassino cruel e impiedoso em ´´Os Imperdoáveis``. (Spoiler)



10. Clímax de ´´Janela Indiscreta``. (Spoiler)

domingo, 2 de novembro de 2008

Última Parada - 174


Títilo original: Última Parada - 174
Ano de lançamento (Brasil): 2008
Direção: Bruno Barreto

Escolhido como representante brasileiro na corrida do Oscar, ´´Última Parada - 174`` de Bruno Barreto possue aquelas mesmas temáticas sociais já adotada em vários outros filmes do excelente cinema nacional. Não fosse o ótimo roteiro e a direção segura de Barreto o filme poderia cair num deja vu sem fim, aliás por que sempre a pobreza tem de ser divulgada mundo afora pelo nosso cinema? Filmes melhores é verdade poderiam ter sido escolhido para tal cargo, mas nenhum desses aspectos tira o mérito do nosso representante como um bom filme, chegando a ser revoltante por baseiar-se numa história real. Ao contrário do que muitos dizem, não considero este filme uma tentativa de vitimizar e romantizar o Sandro. Encarei-o como a biografia de um marginal, apenas um dentre tantos à solta no nosso país, e talvez essa tenha sido a verdadeira intenção do diretor.

Sandro (Michel Gomes) teve realmente uma infância difícil, roubado das mãos de sua mãe por um traficante de drogas ele foi entregue a uma outra mulher que o ´´adotou``. Esta foi brutalmente assassinada por um ladrão e o menino foi morar com a irmã de sua até então mãe. Inconformado ele foge de casa e passa a viver como um menino de rua, onde se perde no mundo das drogas e passa a cometer pequenos furtos e roubos, para mais tardiamente após escapar do ´´massacre da Candelária`` se juntar a Alê Monstro (Marcelo Mello) e fugir da prisão de menores. A partir daí ele se torna um verdadeiro bandido, cometendo assaltos. Sua mãe verdadeira Marisa (Cris Vianna) parte à procura de seu filho, a fim de resgatá-lo daquele mundo e tentar lhe dar uma vida melhor, mas nada poderia convencer Sandro de que ele era apenas um garoto e tinha chance de ser salvo.

Me surpreendeu bastante a direção de Barreto, embora houvesse falhas claras. O principal mérito foi manter o ritmo de uma verdadeira biografia sem que ela caísse no desgosto por se tratar de uma figura transformada em monstro pelo país. Fez uma direção segura e bastante centrada e organizada, mas peca somente em algumas cenas superficiais por demais que poderiam levar o espectador aí sim a pensar dele estar querendo vitimizar o bandido. Outro aspecto importante de sua direção foi não permitir que o filme se tornasse lento, ajudado bastante pela boa fotografia e ótima montagem, mas principalmente pelas ótimas atuações, principalmente do seu protagonista. Parece ter muito futuro esse Michel Gomes. A trilha sonora serve para avisar de que algo terrível e trágico viria a acontecer, e funciona em certo ponto. Um ponto fraco do roteiro e do diretor foi explocar muito pouco o assalto, a parte mais esperada do filme na verdade. Ele foi enfocado como apenas mais uma parte da vida de Sandro, e por esse aspecto o longa perdeu muito de sua tonicidade e realidade. Além de que algumas cenas clichês no momento mais inoportuno (Walquíria gritando ´´Alê``), e revoltante como a de ver um bandido safado como Alê Monstro, que matou uma mulher à sangue frio, derramar lágrimas por Sandro e consolar a sua mãe no enterro.

Lembro como hoje do assalto ao ônibus 174, aliás quem assistia à tv na hora não tem como não lembrar. Como eu disse, a história de Sandro é só mais uma dentre várias, mas também de várias que não seguem o mesmo caminho vermelho deste, e hoje possuem emprego, casa, filhos, esposa. Ele nunca vai ser um herói, muito menos uma vítima. Embora tivesse propício a se tornar aquilo ele teve por diversas vezes a escolha entre o bem e o mal, e sempre escolheu o mal. Poderia continuar morando com a tia e não o fez, poderia ajudar e viver auxiliado pela tia Walquíria (Anna Cotrim) como aparentemente outros meninos fizeram, ou até ter vivido com sua mãe e buscar um outro rumo. Mas não, ele por livre arbítrio escolheu seu caminho e foi justamente isso o que o roteiro de Braulio Mantovani tentou demonstrar. Ninguém nasce para isso ou aquilo. Todos nós temos a oportunidade de escolher se vamos entrar na porta azul ou vermelha. Boa educação e tratamento ajudam na hora de escolher é verdade, mas isto muito mais depende da índole da própria pessoa.

Cotação: 7.5

domingo, 26 de outubro de 2008

Nove Rainhas



Título original: Nueve Reinas
Ano de lançamento (Argentina): 2000
Direção: Fabián Bielinsky

Antes de dar continuidade a mais um Meme, gostaria de falar um pouco sobre um filme maravilhoso e surpreendente que assisti durante a semana. Este filme é o argentino ´´Nove Rainhas``, que conta com um roteiro fabuloso e intrigante, além de uma direção envolvente, e atuações diga-se de passagem fantásticas. Somente pelo fato de termos Ricardo Darín no casting já seria motivo suficiente de criar ansiedade por assistí-lo. E o grande mérito de ´´Nove Rainhas`` é conseguir encantar e empolgar a todo e qualquer momento, destacando-se obviamente pelo duelo de interpretações entre Darín e o excelente Gastón Pauls num papel extremamente bem trabalhado e enfocado, que serve acima de tudo para dar continuidade à frenética sequência de fatos no longa, misturando-se em suspense, aventura, humor, drama familiar e situação social. Como não fosse o suficiente o diretor ainda consegue inteligentemente demonstrar e tratar de maneira adequada acerca de todos estas temáticas encontradas na película.

Juan (Gastón Pauls) é um picareta que precisa de dinheiro para ajudar seu pai. Num de seus golpes dentro de uma loja de coveniência ele conhece um outro picareta aparentemente mais profissional, Marcos (Ricardo Darín). Marcos ajuda Juan a livrar-se da encrenca em que se metera dando seu golpe e em troca o convida para passar um tempo como seu parceiro. Juan, mesmo acanhado, aceita o convite por ao menos um dia e passa a dar golpes pela cidade junto com Marcos, à medida que vai aprendendo e se espelhando no novo companheiro, ele torna-se o pupilo do mestre. Em meio às picaretagens do dia Marcos recebe uma proposta de um antigo parceiro picareta para dar um golpe num milionário espanhol que deixará a cidade no dia seguinte. Este homem é apaixonado por selos, e Marcos tentará vender uma raridade na categoria; as ´´Nove Rainhas``, mas um pequeno detalhe, estes logicamente falsificados.

Portanto Marcos e Juan têm a missão de vender os selos falsificados até o fim do dia, e tentarão de tudo. Terão de pensar e agir rapidamente com inteligência para conseguirem realizar a venda e acima de tudo saírem ileso desta arriscada missão. É neste âmbito que o roteiro se encontra e consegue apresentar detalhes impressionantes dos seus personagens e ainda assim não revelar a verdadeira intenção e personalidade de cada um, possibilitando ao diretor com inteligência manter um clima de suspense e mistério no ar. Não sabemos em quem confiar, não sabemos se aquilo é verdade ou mentira, resta apenas esperar o desfecho. Neste tom envolvente passado na película Bielinsky procura misturar o drama interior de cada um, além de converter boas doses de humor e suspense interligados ao longa.

Darín dá mais um show, seu personagem é uma pessoa no minímo frustrada e fracassada, mas que pensa independendo o sentimento e importância dos outros, ser bem sucedido e inteligente. São atuações inteiramente ótimas de todos no longa, mas o destaque vai para Gastón Pauls, a princípio um simples necessitado que dava golpes por precisar realmente, e sentia vergonha em ter de roubar de uma velhinha que o disse que ele a lembrava de seu neto. Mas como dito; a verdadeira personalidade de cada um de todos os personagens da história só é inteiramente conhecida perto do seu desfecho. Grande mérito do roteiro e direção que deram ao filme um ritmo alucinante e intrigante, ajudada pela precisa e peculiar montagem e a sempre centrada fotografia. Mais um impressionante filme argentino. Personagens que sendo picaretas se aproximam e tornam-se amigos intímos do espectador, mesmo que aquele tenha sido só um dia e mesmo que tudo poderia ser ou não uma farsa, mas aliás a vida de muita gente neste mundo é tão farsa quanto. Grande filme.

Cotação: 9.0

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Top 10 - Decepções

Mais um Meme por aqui, parece a temorada de Memes rsrs. Dessa vez fui convidado pelos parceiros do Multiplot para citar uma lista dos 10 piores filmes que já assisti. Bom, mudarei um pouco este conceito, para decepções. Ou seja, nessa lista incluem filmes do gosto de muita gente e alguns até muito consagrados, mas que eu simplesmente não consegui gostar, por mais que tentasse em alguns casos. Se fosse para listar os piores de verdade com certeza apareceriam ridicularidades como ´´Norbit`` ou Steven Seagal (toc toc na instante) ou afins. Pode gerar polêmica, mas é aí que se encontra a diversão de falar sobre cinema. Vamos lá às maiores DECEPÇÕES, e NÃO OS PIORES filmes que assisti:

1. Olga (Jayme Monjardim, 2004)
2. O Cortiço (Francisco Ramalho, 1978)
3. O Búfalo da Noite (Jorge Hernandez, 2007)
4. Entre Dois Amores (Sydney Pollack, 1985)
5. O Novo Mundo (Terrence Malick, 2005)
6. Má Educação (Pedro Amoldóvar, 2004)
7. Dona Flor e seus Dois Maridos (Bruno Barreto, 1978)
8. O Paciente Inglês (Anthony Miguella, 1996)
9. A Janela Secreta (David Koepp, 2004)
10. Lawrence, da Arábia (David Lean, 1962)

Nossa! Vou ser apedrejado por ter colocado este último na lista. Não deixem de falar comigo por favor kkkkk. Passo a árdua tarefa para:

Cinefilando
Cinema Em Casa
Cinéfilo, eu?
Moviemento
TalKing About Movies

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Top 10 - Vilões

Respondendo a mais um Meme. Convidado pelos amigos Jacques (e-MotionMovies), Ygor (Moviemento) e Marcel (Talking About Movies) venho a fazer uma lista dos meus 10 vilões favoritos na história do cinema. Um dos melhores Memes já passado. Obrigado pelos convites. Foi muito difícil, vem tantos à cabeça. Mas aqui não incluirei na lista vilões de filmes de máfia, como os Corleones, os rapazes de Scorsese, Tony Montana e etc. São vilões, mas adequados ao tipo de filme acabam virando, perdoem-me a expressão da palavra ´´anti-heróis``. Claro que bandido é bandido, mas seria uma boa fazer um Meme com os 10 maiores mafiosos do cinema não?
Bom, vamos lá:
1. Darth Vader (Saga ´´Star Wars`` - voz de James Earl Jones)

2. Norman Bates (Anthony Perkins em ´´Psicose``,1960)

3. Hal 9000 (voz de Douglas Rain em ´´2001-Uma Odisséia No Espaço``,1968)

4. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins em ´´O Silêncio dos Inocentes``,1991)

5. Amon Goeth (Ralph Fiennes em ´´A Lista de Shindler``, 1992)

6. Jack Torrance (Jack Nicholson em ´´O Iluminado``, 1980)

7. Zé Pequeno (Leandro Firmino em ´´Cidade de Deus``, 2002)

8. Capitão Vidal (Sergi López em ´´O Labirinto do Fauno``, 2006)

9. Lars Torwald (Raymond Burr em ´´Janela Indiscreta``, 1954)

10. Coringa (Heath Ledger em ´´Batman-O Cavaleiro das Trevas``,2008)


Strong Contenders:
Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis em ´´Sangue Negro``)
Anton Cigurh (Javier Bardem em ´´Onde os fracos não têm vez``)


Convido a fazer o mesmo:

Cinema - Filmes e Seriados
Cinema e Argumento
Espaço Lumière
Multiplot
Tudo É Crítica

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira



Título original: Blindness
Ano de lançamento (Brasil/Canadá/Japão): 2008
Direção: Fernando Meirelles

Nossa! Finalmente de volta!
Fui repentinamente forçado a me ausentar por um certo tempo sem ter a oportunidade de dar satisfações, pc quebrado, semanas de prova na faculdade, aulas da auto-escola. Enfim, agora estou de volta e com atualizações muito mais regulares, podem estar certos disso.

Finalmente também digo por ter assistido Ensaio Sobre a Cegueira, filme que estreou por aqui na minha cidade cerca de quase um mês depois da estréia nacional. Corri para o cinema assim que soube da excelente notícia. Afinal li o livro fabuloso de José Saramago e estava muito ansioso acerca do filme. Antes de nada vale ressaltar o grande casting além de um ótimo diretor do qual o filme contava. Meirelles vem fazendo cada vez mais sucesso mundo afora após o sucesso internacional de sua obra-prima Cidade de Deus. E seu grande mérito neste longa é aprofundar-se no interior dos personagens, assim como feito no livro, e tentar passar a naturalidade a todo momento como nas boas cenas de humor e casualidades que ocorrem. Penso ainda que no primeiro quesito ele e o roteirista poderiam ter se aprofundado mais.

Aparentemente está a acontecer uma epidemia de cegueira pelo país, e os primeiros casos além dos que tiveram contato com estes são mandados para uma quarentena sobre investigação. O número de grupos aumenta cada vez mais e a quarentena é isolada e vigiada pelos soldados. Uma mulher simples esconde que consegue enxergar perfeitamente e não fora ainda afetada pela ´´treva branca``. À medida que a convivência vai ficando insuportável e desumana, diante de mortes, estupros, fome, sujeira intolerável, e após um incêndio provocar a saída forçada pelo instinto de sobrevivência destes da quarentena a mulher que enxerga (mulher do médico) percebe não haver mais soldado algum por ali, além do portão estar aberto, e assim todos estarem livres. Juntam-se a um grupo ela, seu marido e mais 5 por quem se aproximaram (os primeiros casos na verdade), estes um casal, um homem de idade, um garotinho e uma bela jovem.

Assustam-se com o que sentem, e vê, a mulher do médico; todos estavam cegos e a cidade estava ao colapso, suja e acabada, sem energia e comunicação. Todos um bando de cegos a procurarem apenas por comida e buscando a sobrevivência, até quando esta poderia durar. Esta mulher então resolve guia-los e ajudá-los por ser a única aparentemente que podia ver, ver aliás a total desgraça e dependência humana. O livro é fantástico em todos os sentidos. Meirelles até tenta passar o mesmo drama humano que se sente no livro, mas falha em certos aspectos. Estudar por mais o interior dos personagens, dentre eles o rapazinho estrábico que é uma triste e sublime metáfora do livro, além de poder junto ao seu roteirista ter dedicado mais cenas que pudessem analisar mais detalhadamente os principais personagens, como por exemplo a não filmada (creio eu) parte do livro em que visita-se a casa de três deles.

Outro exemplo que pude retirar foi o fato do filme dedicar apenas uma cena a um dos personagens mais importantes do livro na minha opinião; o cão das lágrimas. Este cão por diversas vezes na obra de Saramago se mostra muito mais humano do que os próprios, e embora houvesse a muito bem dirigida cena em que este aparece pela primeira vez enxugando as lágrimas da mulher do médico mesmo assim não soa o bastante. Reparem inclusive como nessa cena enfatiza-se cães comendo um humano morto ao chão e logo depois passa este cão das lágrimas e em vez de se juntar aos outros caninos vai em direção à mulher. Seria ótimo então mais cenas como essa, e mais cenas de seus próprios personagens, seus peculiares como bem mostrado no livro. O final foi um pouco adiantado.

Mas nenhum desses problemas retiram o mérito do bom filme, aliás por algumas vezes Meirelles demonstra o drama humano do longa (como nas duas cenas da fogueira do casal) e o afasta de ser um grande épico cheio de aventura e terror. O filme é um ensaio sobre a cegueira, assim como seu livro, uma hipótese de como seria diante de uma sociedade tão burocrática e degradante como a qual nos encontramos hoje. Um grande aspecto da direção de Meirelles é a naturalidade passada nos seus filmes, e neste brilhantemente enfatizada nas todas ótimas cenas de humor. Bernal imitando Stevie Wonder? Ótima sacada do roteiro. Aliás a atuação de Bernal embora pequena é espetacular, ele interpreta um moleque, apenas um moleque que tenta se aproveitar por portar uma arma. Todo o elenco se comportou bem e soube com a ajuda de Meirelles passar a devida naturalidade e dramaticidade necessária para o filme, com maior destaque para Ruffalo e Alice Braga, além da eficiente mas não excelente atuação da Julianne.

Uma trilha sonora que para muitos possa soar impaciente, mas é uma verdadeira perfeição diante das cenas filmadas. A fotografia claríssima e a montagem confusa por vezes parecem exageradas, mas serve para demonstrar um pouco do mundo em que os cegos estavam enfretando. O filme é como seu livro um estudo dos cegos, dos cegos que já eram cegos, dos cegos que sempre foram cegos e nunca tiveram a capacidade de enxergar isto.

Cotação: 8.0